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11 de julho de 2012

Dicionário


Esta nota refere-se à secção 3 (que pode ler aqui) .

"— Bravo, barão!... Rente às quintas-feiras... É como eu."

rente (adj. 2 gén.) 1. Próximo; cérceo; muito curto. 2. [Informal]  Pronto; assíduo.

O sentido, aqui, parece ser o de "assíduo às quintas-feiras"

"— Isso é que é zelo... pelo culto das belas."
Parece tratar-se de um trocadilho maroto do barão: o coronel também é assíduo no teatro (uma das "belas-artes"), mas o que o barão, maroto, insinua é que ele vem é ver as "belas... mulheres"

"tipo insinuante de marnoto"

marnoto (subst. masc.): 2. Aquele que trabalha nas salinas.


"com uma expressão tão nuamente lúbrica"

lúbrico (latim lubricus, -a, -um) (adj.) 2. Que tende para a luxúria, para a sensualidade.

A expressão do barão a olhar para o rapaz foi, pois, descaradamente sensual.

"— Olha que gajo!... Você comigo engana-se!"

gajo (subst. masc.) 1. [Calão]  Indivíduo ordinário; súcio. 2. Tipo. (adj.) 3. Velhaco; espertalhão; malandro.

Curioso, como algumas palavras de calão são muito mais antigas do que imaginávamos.

"O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém teria ouvido"

circunvagar (verbo intr.) 1. Vagar em torno, andar sem destino, andar errante. (verbo tr.) 2. Vaguear em redor de.
Aqui temos uma repetição e uma contradição: "circunvagar em torno" (o prefixo "circum" em "circunvagar" tem o mesmo significado de "em torno") e "circunvagou rápido" ("vagar" em "circunvagar" é mais associável a lentidão que a rapidez). Conseguem imaginar razões para esta escolha de palavras?

"rodou viscoso para longe"
viscoso (latim viscosus, -a, -um) (adj.) 1. Que tem visco. 2. Que tem consistência mole, semelhante a gelatina. 3. Que adere ou se pega facilmente.
Algo que causa repulsa, talvez uma forma de criar uma "imagem" negativa do barão, associando-o a algo repelente.

Fontes:



10 de julho de 2012

"Truque" literário

Esta nota refere-se à secção 3 (que pode ler aqui) .

"Truque" literário
Depois de ter feito "zoom" da multidão que se acumulava para entrar nos teatros até a um homem isolado que circulava no meio dela, a narrativa tinha que seguir explicando quem era esse homem. Abel Botelho podia ter continuado em formato descritivo ("Era o barão de Lavos, um homem casado mas que..."), mas decidiu usar um "truque" literário que tornou a narrativa mais viva e interessante: inventou um encontro casual com um coronel que conhecia o barão, e pôs na boca do coronel a identificação desse tal homem misterioso. 
Não só ficámos a saber que se tratava de um barão, mas ficámos a saber também (sem ser preciso escrevê-lo explicitamente, porque a associação é óbvia) que era o personagem principal do livro, o barão de Lavos, um "caçador de efebos", com o que, de uma assentada, fomos introduzidos ao que é, talvez, o tema principal da obra, a homossexualidade. Bravo! Grande abertura!

8 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 3


Um bom velho de ar marcial, vermelhinho e gordo, bigode e pera negros, bateu-lhe no ombro:
— Bravo, barão!... Rente às quintas-feiras... É como eu.
— Ó coronel! — balbuciou o barão, levemente perturbado, cumprimentando, — isso é que é zelo... pelo culto das belas.
— Ai! Ai!... Com elas é que eu me quero. Já agora hei de morrer assim... A esposa, boa?
— Boa, obrigado... Não quis vir.
— Já tem bilhete? São horas.
— Eu não entro por ora. Logo nos vemos, lá dentro.
Um impulso da onda que entrava separou-os.


O barão deu de frente então com um rapazito que vendia pastéis. Teria quinze anos. Pele morena, olho aveludado, tipo insinuante de marnoto, camisola de xadrez azul e preto, calça branca muito justa, à frente uma grande cesta vestida de oleado, em cujo interior destacavam de uma alvura de toalha várias gulodices. Como viu o barão encará-lo com insistência, o rapaz naturalmente aproximou-se:
— Quer pastelinhos, freguês?
E oferecia-lhe o cesto, donde vinha um cheiro morno a canela e a manteiga.
O barão porém respondeu-lhe: — Não, filho... não quero pastéis! — com um acento, uma expressão tão nuamente lúbrica, que o rapaz retrucou, num tom de desprezo sacudido, dando-lhe as costas:
— Olha que gajo!... Você comigo engana-se!
O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém teria ouvido, e rodou viscoso, manso, para longe, infiltrando-se, anulando-se na massa anónima daquela multidão turbulenta.


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