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12 de março de 2014

A estrada rútila de sol

(esta nota refere-se à secção 13 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui)

"Tomou conta da casa, — uns quatro contos de renda, se tanto"
Convertendo de réis para escudos (1911) e depois para euros (2002), teríamos que 4 contos = 4.000.000 réis = 400 escudos ~ 2 euros! Mas, tendo em conta a inflação, os 4 contos de renda anual do Barão valeria hoje aproximadamente 100.000 euros. Nada mau!

"um desvio fisiológico, — uma diátese úrica que lhe espessava e abastardava o sangue"
diátese (s. f.) Disposição para ser atacado por muitas doenças locais da mesma natureza.
Ou seja, o Barão sofria dos rins.

"a estrada rútila de sol"
rútilo (adj.) 1. [Linguagem poética]  Rutilante, cintilante. 2. Que tem a cor do ouro muito viva.

"vivendo anchamente do passivo de uma falência fraudulenta"
ancho (adj.) 1. Largo; amplo.

"na acanhada circuição do seu espírito"
circuição (s. f.) Ato de andar à roda; giro; circuito.

"a etiologia moral do barão seguia fatal na sua escala deprimente"
etiologia (s. f.) 1. Estudo sobre as origens das coisas. 2. [Medicina]  Parte da Medicina que estuda as causas das doenças.

"uma orquite dupla anulara no barão, quando solteiro, a faculdade de procriar."
orquite (s. f.) Inflamação dos testículos.


Fontes:
Deflator do PIB, 1891-1945: Pedro Lains, aqui
Deflator do PIB, 1945-1960, Economic Growth in Europe Since 1945, Cambridge University Press, 1996
Deflator do consumo privado, 1960-2012, Pordata

Misto inexprimível de morbidezza e força, de energia e doçura

(esta nota refere-se à secção 12 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui)

"Misto inexprimível de morbidezza e força, de energia e doçura"
morbidez (s. f.) 4. [Belas-artes]  Suavidade nas carnes da figura.

"arrancava-o encarniçadamente a um trabalho desfibrinante de evocação interior."
desfibrinar (v. t.) 1. Extrair a fibrina de. 2. Deixar (um corpo) sem fibrina.
Desfibrinante parece ser, aqui, utilizado figuradamente, com o sentido de exasutivo, esgotante.

Fontes:

24 de fevereiro de 2014

Os Aquiles, os Narcisos, os Batilos, os Hermes, os Adónis, os Evangelistas, as Madalenas, as Fornarinas... de Sebastião!

(esta nota refere-se à secção 12 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui)
(sobre o mito de Aquiles, ver também Mitologia grega: "a obscena invenção de Ganimedes" e outros)



"O mesmo com o célebre Aquiles, em mármore, do museu do Louvre, soberbo estudo do nu pertencente à época chamada do estilo sublime, e que passa por cópia de um trabalho de Alcamenes, o discípulo predileto de Fídias." 

O Aquiles a que Abel Botelho se refere, deverá ser a estátua que atualmente se designa por Ares Borghese, uma cópia romana (séc. I a II) exposta no Museu do Louvre, cujo original foi atribuído ao grego Alcamenas por Furtwangler [foto de Marie-LanNguyen aqui]

"O mesmo com os Narcisos, os Batilos, os Hermes, os Adónis, os Evangelistas, as Madalenas, as Fornarinas, — com os motivos mais humanamente plásticos de todas as religiões e de todos os tempos."

Abaixo, alguns dos Narcisos, Batilos, Hermes, Adónis, Evangelistas, Marias Madalenas e Fornarinas que Sebastião poderá ter admirado no seu "Grand Tour" pela Europa.


Narciso Mazarin (séc. III) do Museu do Louvre [foto de Cheri777 aqui]
Hermes Logios (séc. I) do Museu Nacional de Roma [foto de Marie-Lan Nguyen aqui]
Adonis Centocelle (séc. II) do Museu Ashmolean de Oxford [foto de Stuart Yeates aqui]
São João Evangelista, de Guido Reni (séc. II) da Galeria Farnese [foto de Sailko aqui]
Pietá com Maria Madalena, de Aníbal Carraci (1602-1607) do Museu do Louvre [foto de JarektUploadBot aqui]
La Fornarina, de Rafael (1602-1607) do Galeria Nacional de Arte Antiga, Roma [foto de Eugene aqui]


23 de fevereiro de 2014

Os Ganimedes de Sebastião

(esta nota refere-se à secção 12 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui)
(sobre o mito de Ganimedes, ver também Mitologia grega: "a obscena invenção de Ganimedes" e outros)


"Várias figurações de Ganimedes tocaram-no igualmente, a saber: a encantadora estátua em mármore de Carrara, do Vaticano, achada em Óstia em 1800;"

A estátua a que Sebastião se refere poderá ser a cópia romana do famoso bronze do grego Leochares (325 AC) representando Ganimedes nas garras de Júpiter transfigurado em águia, exposta no Museu do Vaticano (foto de Jastrow aqui).



"o famoso Rapto de Ganimedes, de Rubens, no museu real de Madrid;" 

Júpiter ficou tão fascinado com a beleza de Ganimedes que se transformou numa águia para o levar para o Monte Olimpo; quadro a óleo de Peter Paul Rubens, 181x87, proveniente da Coleção Real e em exposição no museu do Prado (foto aqui).



"o fresco de Carrache, em Roma;" 

O Rapto de Ganimedes, na foto ladeado por dois sátiros, no fresco de Aníbal Carracci, parte da decoração da galeria Farnese do palácio com o mesmo nome, em Roma, intitulada Os Amores dos Deuses, pintado de 1597 a 1608 (foto de Gradiva aqui).



"em Florença, a tela de Gabbiani." 

O Rapto de Ganimedes é um quadro a óleo (123x173) de Antonio Domenico Gabbiani (1700) está exposta em Florença na Galeria dos Uffizi, em Florença (foto de Magnificus, aqui).


22 de fevereiro de 2014

Os Antínoos de Sebastião

(esta nota refere-se à secção 12 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui)


"Trouxe-o doente da mais cega paixão, dias seguidos, o célebre Antínoo descoberto em Roma no século XVI, no bairro Esquilino, que ocupa hoje no belvedere do Vaticano um gabinete especial, e é das melhores obras da antiguidade que o tempo nos poupou. Maior que o natural, deslumbrante na lisa alvura do mármore, ele inclina a cabeça levemente e dealba no sorriso uma expressão graciosa e fina, que faz um contraste adorável com a vigorosa envergadura do arcaboiço. Misto inexprimível de morbidezza e força, de energia e doçura, esta figura preciosíssima realizava para Sebastião em êxtase uma tão perfeita harmonia de conjunto, que ele ficou-a tomando sempre por modelo das boas proporções da figura humana."

A estátua de Hermes do Museu Pio-Clementino (Vaticano) foi inicialmente conhecida como o Antinoo do Belvedere (referência ao famoso Pátio do Belvedere, no Vaticano, onde esteve exposta) e durante muito tempo pensou-se ter sido encontrada no bairro romano Esquilino, mas atualmente sabe-se que foi encontrada num jardim perto do Castelo Sant'Angelo. [foto de João Máximo, aqui]



"outra singelamente coroada de gramas e nas mãos as insígnias agrárias de Vertumno, fresca e robusta."

O Antínoo Braschi, atualmente na sala Rotonda do Museu Pio-Clementino do Vaticano, tem a cabeça coroada de folhas e bagas e nas mãos segura o tirso, o bastão envolvido em hera e vinha, e coroado por uma pinha, símbolo na mitologia grega e romana dos deuses Dionísio e Baco (e também Vertumno?). [foto de Jastrow, aqui]



"uma figurando-o de deus egípcio, o olhar hirto e parado, a curva do lótus no sobrolho, o cabelo todo em anéis colados às fontes, paralelos"

Antínoo Osiris, que se pensa ser uma de dez estátuas de mármore de Antínoo em traje egípcio encomendadas por Adriano para decorar os nichos do Serapeum do Canope da Villa Adriana, atualmente no Museu Gregoriano Egípcio (Vaticano). [foto de Marie-Lan Nguyen aqui]


"Uma outra em Roma, no Capitólio, trazida da antiga villa de Adriano em Tivoli, representando o formoso escravo, que as águas do Nilo sepultaram, com o rosto repassado de melancolia, os olhos grandes e magistralmente desenhados, a cabeça também inclinada ligeiramente, e em torno da boca e da face esvoaçando uma perfeição de contorno ideal."

O Antínoo Capitolino foi encontrado na Villa Adriana e foi exposta, depois de restaurada, no Museu Capitolino, onde ainda se encontra hoje (depois de ter sido levada por Napoleão para Paris). [foto de Jastrow, aqui]



"No Louvre, uma com os atributos de Hércules, da mais altiva elegância"

O Antínoo Braschi do Louvre tem o corpo (reaproveitado) de uma estátua de Hércules e uma cabeça de Antínoo. [foto de Jastrow aqui]



"outra com os olhos de pedras finas e sobre as espáduas um manto de bronze, largamente panejado"

Antínoo representado como sacerdote do culto imperial, encontrada na Líbia e atualmente no museu do Louvre. (nota: não sabemos se seria a este Antínoo que Abel Botelho se refere) [foto de Jastrow aqui



"e uma terceira, sedutora, com o largo chapéu, redondo e baixo, de Mercúrio, meia túnica deixando descoberto um braço soberbamente modelado, a perna cingida por botinas de coiro, a coxa inteiramente nua, opulenta e suave."

Antínou Aristeu, deus dos jardins, comprada em Roma pelo cardeal Richelieu e exibida em Paris, no Museu do Louvre. [foto de Marie-Lan Nguyen aqui]




19 de fevereiro de 2014

Refarto de alçapremar traições num sorriso, de farricocar o ódio em graciosas mesuras

(esta nota refere-se à secção 11 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui)

"refarto de alçapremar traições num sorriso, de farricocar o ódio em graciosas mesuras"
refartar (v. tr) 1. Fartar muito. 2. Saciar inteiramente.
alçapremar (v. tr.) 3. [Figurado]  Oprimir.
farricocar (v. tr.) Proceder como farricoco, de forma oculta, disfarçada, como encapuzado.
mesura (s. f.) 1. Reverência (cumprimentando), cortesia, vénia. (s. f. plural) 2. Salamaleques.
Ou seja, o pai do barão já não aguentava mais oprimir traições num sorriso, disfarçar o ódio em graciosas vénias. 

"arriscavam-lhe confidencialmente, em breves períodos lardeados de reticências, os astutos precetores"
lardear (v. tr.) 2. [Figurado]  Entretecer; entremear.

"Mais de uma vez, por noite alta, os prefeitos haviam surpreendido o menino fora da cama, abancado à mesa, a face colada a uma luz asfixiante de petróleo, fumosa e lívida, todo numa febre de improviso, a fronte camarinhada, o olhar ardente, a mão trotando no papel, a fazer versos profanos. — Tinham-no castigado, — estivesse descansado."
camarinhado (adj.) Que tem forma de camarinha ou baga.
As camarinhas são bagas esbranquiçadas, quase como pérolas, de certas urzes do nosso litoral. Sebastião, na sua "febre" de escrever poesia, teria a fronte perlada de gotas de suor.

"Destas cenazinhas adoravelmente ridículas, que são triviais nos colégios, — trocas de solilóquios inflamados, cartas, exorações, amuos, rancores, ciúmes, pugilatos, ensaios precipitados de cópula no palmo quadrado das latrinas, — de tudo teve o futuro barão num grau exagerado e quente, a que a sua compleição débil e requintada vestia o máximo colorido."
Nos colégios internos, as cenas de homossexualidade entre rapazes ainda eram "triviais" em meados do século XX, tal como é narrado, por exemplo, em Internato, de João Gaspar Simões  e Uma Gota de Sangue (volume I de A Velha Casa), de José Régio. Abel Botelho, classifica-as, curiosamente, de "adoravelmente ridículas", não lhe associando conotações negativas.
solilóquio (s. m.) Ato de falar sozinho. = MONÓLOGO
exoração (v. tr.) Implorar com instância; suplicar.

"a narina aflante"
aflante (adj. 2 géneros) 1. Que insufla; que entumece. 2. Ofegante.

"as olheiras lustradas de roxo, um pouco de dispneia"
dispneia (s. f.) [Medicina]  Dificuldade em respirar, acompanhada de uma sensação de mal-estar.

"os pés tartameleando perros no tijolo"
tartamelear [o mesmo que tartamudear (v. intr.) 4. [Figurado]  Atrapalhar-se.

"um trémulo agitar dos dedos, nervoso, inflamado, adunco, uma como ânsia de apalpar a Vida"
adunco (adj.) Em forma de garra. = CURVO, RECURVADO

Chance meeting, 1992, por Duane Michals
"O olhar era de ordinário baixo; não cruzava com firmeza; e sempre que sentia um outro olhar a interrogá-lo fito, as pálpebras desciam logo, a garantir-lhe a inviolabilidade do abismo."
Os olhos são o espelho da alma, segundo diz o provérbio, e Abel Botelho aproveita com esta bela frase para caracterizar Sebastião como falso, obscuro, baixo.   

"Quis estudar mais. Continuou em Lisboa, cursando a Politécnica."
A Politécnica seria a a Escola Politécnica de Lisboa, fundada em 1837 pelo visconde de Sá da Bandeira para suceder à Academia real da Marinha. Foi um estabelecimento de ensino superior técnico e científico que em 1911, foi transformado na atual Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

"roboravam-se-lhe as predileções plásticas"
roborar (v. tr.) 2. [Figurado]  Corroborar; confirmar.

"No modalismo da natureza interessava-o principalmente o sensível, o tangível, a face pagã, material das coisas."
modal (adjetivo 2 géneros) 1. Relativo a modalidade. 2. [Filosofia]  Relativo aos modos da substância.

"a despeito do seu fundo etiológico de pederasta"
etiologia (s. f.) 1. Estudo sobre as origens das coisas.

"quer num músculo bem fibrinado"
fibrina (s. f.) [Bioquímica]  Substância albuminoide branca, insípida e inodora, que entra na composição do sangue, do quilo e do músculo.

Fontes:

6 de março de 2013

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 13


Em 1860 morreu-lhe o pai. Ele era filho único e único representante daquele ramo da família. Tomou conta da casa, — uns quatro contos de renda, se tanto, — e continuou desperdiçando loucamente a mocidade em aventuras galantes, em pândegas, em devassidões imprevistas. Para mais, um desvio fisiológico, — uma diátese úrica que lhe espessava e abastardava o sangue, — dava-lhe uma facilidade simpática de adaptação a todas as vis aberrações da carne.

Um dia começou com ele a saciedade, o tédio. Acalmou, viu claro. Conheceu que, a continuar assim, ia entranhar-se, dissolver-se irremissivelmente na treva das ínfimas degradações, como um caminhante que deixa a estrada rútila de sol, lisa e direita, para entrar num emaranhamento negro de floresta. Teve medo. Lembrou-lhe então casar... Sorriu à ideia. Seria uma emoção nova; seria principalmente, com a sua imposição de deveres sacrossantos, um freio, uma norma séria e digna de viver. O casamento pois fascinou-o, como variante e como corretivo.

Ora, entre as famílias das suas relações, frequentava particularmente o barão a casa do Sr. Inácio Miguéis, antigo negociante de panos, vivendo anchamente do passivo de uma falência fraudulenta. Ele, a mulher e duas filhas casadoiras. Destas a mais velha, Elvira, não deixava de agradar ao barão. Irrequieta, nervosa, branca, pequenina, ressumava de todo o seu ser miudinho e frágil uma complexidade picante de mistério. Era o Desconhecido; era um problema vivo, — e delicioso problema! — a decifrar. Fez-lhe o barão a corte.

A rapariga no fundo não passava de uma burguesita imensamente leviana e sofrivelmente ignorante, extremosa mas fútil, não tendo da moral a compreensão mais estrita, e cultivando assiduamente por igual na janela do seu quarto os namoros e os amores-perfeitos. O natural era excelente, liso na intenção, apontando ao bem, simples, claro. Formada numa educação menos absurda que a lisboeta, podia ter dado uma mulher exemplar. Nem sensual, nem desequilibrada. Alma grande e inteligência estreita. O que queria era que a amassem, era ter que amar; porém na acanhada circuição do seu espírito este desejo não violava os limites postos ao amor legítimo pela religião e a lei. Assim, ela não namorava por vício, mas por cálculo, na ânsia de realizar perante Deus e os homens a sua inclinação natural. E no namorado não via nunca o macho, não apetecia o homem; delineava, futurava o marido. Casar era o seu sonho doirado; casar com um fidalgo, — a sua primeira aspiração de burguesa.
— Se este barão me quisesse!... Isso sim! Lembrava-se lá!... — Bem lhe tinha ela já feito a diligência. — Mas qual!
Por isso também, quando percebeu que o barão a requestava, ia estalando de alegria, coitadita. Foi naquela casa uma alegria doida... Breve, casaram, em S. Cristóvão, perto do palacete do barão.

Julgaram-se felizes nos primeiros tempos; mas, a pouco trecho, o encanto da novidade tinha quebrado, a etiologia moral do barão seguia fatal na sua escala deprimente. Veio-lhe a fome irresistível dos hábitos antigos. Recaiu neles, agora com todas as precauções tortuosas que o novo estado exigia. A mulher, à força de a ver sempre, ia-a esquecendo. O problema esperava a solução, — que lhe importava a ele! — Assim, o afastamento, a indiferença, o desgosto iam cavando entre os dois, cada vez mais largo e mais fundo... Não tinham filhos: — uma orquite dupla anulara no barão, quando solteiro, a faculdade de procriar. E agora, ao cabo apenas de três anos de vida em comum, ele, sentado ali junto da sua pequenina e apetitosa esposa, tinha frio, torcia-se, mirava confrangidamente, num misto de humilhação e de respeito, aquela cabecita luminosa e redonda, enquanto lhe dançava na imaginação o efebo que deixara há pouco no Passeio.

Deu uma hora no gabinete ao lado.
Ele então, erguendo-se:
— Vou-me deitar.
E a baronesa, toda de alma na leitura:
— Vai indo, que eu já vou.
O barão saiu pela porta do toitette, num bocejo arrastado, enquanto ela, depois de uma leve expiração de alívio, continuava interessadamente a ler.

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 12


Quando contou vinte anos, rogou ao pai que lhe permitisse fazer uma viagem ao estrangeiro. Concedido. E o rapaz partiu, trépido de entusiasmo. De Madrid seguiu a Paris; depois visitou a Itália. Nesse afortunado passeio pelas civilizações irmãs da nossa, tudo quanto respeitava à Arte constituiu a melhor porção do seu estudo. O maior do tempo gastou-o no interior dos velhos monumentos, nos museus, nas coleções particulares, nos bazares exóticos, nas lojas de bric-à-brac. E aí, na religiosa paz desses salões consagrados, que horas de sublimado gozo, de contemplação inefável! Estátuas e quadros que figurassem a nu belos corpos de adolescentes, estonteavam-no. Trouxe-o doente da mais cega paixão, dias seguidos, o célebre Antínoo descoberto em Roma no século XVI, no bairro Esquilino, que ocupa hoje no belvedere do Vaticano um gabinete especial, e é das melhores obras da antiguidade que o tempo nos poupou. Maior que o natural, deslumbrante na lisa alvura do mármore, ele inclina a cabeça levemente e dealba no sorriso uma expressão graciosa e fina, que faz um contraste adorável com a vigorosa envergadura do arcaboiço. Misto inexprimível de morbidezza e força, de energia e doçura, esta figura preciosíssima realizava para Sebastião em êxtase uma tão perfeita harmonia de conjunto, que ele ficou-a tomando sempre por modelo das boas proporções da figura humana.

Mas muitas outras estátuas do belo favorito de Adriano impressionaram fortemente o futuro barão de Lavos. Mesmo no Vaticano, mais duas ainda: uma figurando-o de deus egípcio, o olhar hirto e parado, a curva do lótus no sobrolho, o cabelo todo em anéis colados às fontes, paralelos; outra singelamente coroada de gramas e nas mãos as insígnias agrárias de Vertumno, fresca e robusta. Uma outra em Roma, no Capitólio, trazida da antiga villa de Adriano em Tivoli, representando o formoso escravo, que as águas do Nilo sepultaram, com o rosto repassado de melancolia, os olhos grandes e magistralmente desenhados, a cabeça também inclinada ligeiramente, e em torno da boca e da face esvoaçando uma perfeição de contorno ideal. No Louvre, uma com os atributos de Hércules, da mais altiva elegância; outra com os olhos de pedras finas e sobre as espáduas um manto de bronze, largamente panejado; e uma terceira, sedutora, com o largo chapéu, redondo e baixo, de Mercúrio, meia túnica deixando descoberto um braço soberbamente modelado, a perna cingida por botinas de coiro, a coxa inteiramente nua, opulenta e suave.

Várias figurações de Ganimedes tocaram-no igualmente, a saber: a encantadora estátua em mármore de Carrara, do Vaticano, achada em Óstia em 1800; o famoso Rapto de Ganimedes, de Rubens, no museu real de Madrid; o fresco de Carrache, em Roma; em Florença, a tela de Gabbiani. O mesmo com o célebre Aquiles, em mármore, do museu do Louvre, soberbo estudo do nu pertencente à época chamada do estilo sublime, e que passa por cópia de um trabalho de Alcamenes, o discípulo predileto de Fídias. O mesmo com os Narcisos, os Batilos, os Hermes, os Adónis, os Evangelistas, as Madalenas,as Fornarinas, — com os motivos mais humanamente plásticos de todas as religiões e de todos os tempos.

De tudo isto comprou quanta reprodução lhe apareceu. Voltou com o gosto educado, apurado, sábio, e com a sede dos largos prazeres ignorados a chamejar-lhe cada vez mais mordente nos grandes olhos negros. A estupidez pacata do nosso meio exacerbava-o, estimulava-lhe a fantasia. O que a contingência externa lhe não dava, D. Sebastião arrancava-o encarniçadamente a um trabalho desfibrinante de evocação interior. Criava, sonhava, concebia caprichos inverosímeis, que ora conseguia realizar a muito custo, ora se limitava a saborear, mercê de um longo dispêndio imaginativo, na solidão da sua alcova.

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 11


No barão de Lavos confluíam poderosamente as qualidades todas do pederasta. Quando tinha dez anos, entrou para o colégio de Campolide. Seu pai, velho cortesão cheio de tédio e de dívidas, viúvo, refarto de alçapremar traições num sorriso, de farricocar o ódio em graciosas mesuras, de espremer a bolsa em proveito de parentes e caloteiros, resolvera sair de Lisboa, descansar, fugir aos prazeres, à intriga, ao mundo que conhecia de sobra. Foi-se para Lavos, onde possuía excelentes propriedades em salinas, campos e florestas, a refazer a fortuna e a endireitar a espinha. O filho, entregue à douta proteção dos jesuítas, no seu ponto de vista, ficava bem. Por ocasião das férias, acolhia-o com alvoroço, retinha-o com amor, dava-se a estudar-lhe interessadamente os progressos na educação. O rapaz era inteligente, amigo do estudo, — mesmo talentoso, — arriscavam-lhe confidencialmente, em breves períodos lardeados de reticências, os astutos precetores. — E dava-lhes cuidado, — acrescentavam receosos, — regurgitava de seiva, precisava ser dominado de princípio, aliás corria o risco de se perder.

Mais de uma vez, por noite alta, os prefeitos haviam surpreendido o menino fora da cama, abancado à mesa, a face colada a uma luz asfixiante de petróleo, fumosa e lívida, todo numa febre de improviso, a fronte camarinhada, o olhar ardente, a mão trotando no papel, a fazer versos profanos. — Tinham-no castigado, — estivesse descansado.

A verdade é que D. Sebastião saíra uma organização privilegiada de artista. A uma retina infalível no apanhar o lado belo das coisas juntava uma larga capacidade imaginativa, uma acuidade dilacerante do sentimento plástico e um poder veemente de expressão. Com o penujar da adolescência veio-lhe o impulso de verter nos companheiros as demasias da sua alma generosa e ávida. Amou alguns dos colegiais que lhe orçavam pela idade. Foi excessivo. Destas cenazinhas adoravelmente ridículas, que são triviais nos colégios, — trocas de solilóquios inflamados, cartas, exorações, amuos, rancores, ciúmes, pugilatos, ensaios precipitados de cópula no palmo quadrado das latrinas, — de tudo teve o futuro barão num grau exagerado e quente, a que a sua compleição débil e requintada vestia o máximo colorido. Quando o seu desejo se concentrava, inconfessado, tímido, ardente na pessoa de um colega a quem por qualquer circunstância ele não podia ou não resolvia declarar-se, então o desgraçado sofria insónias horrorosas, durante horas e horas intermináveis, de costas na cama, a narina aflante, a pálpebra leve, os olhos arregalados para o teto na escuridão cava da noite, os dentes rangendo rápido e o corpo todo vibrante no arrepio de uma crise nervosa fatal, obsessiva.

Quase sempre uma evacuação seminal, provocada por ele próprio, ou, as mais das vezes involuntária, e determinada sem prazer, por uma irritação quase dolorosa, punha termo, no quebramento cortado de sobressaltos da madrugada, a este estado cru de excitação. Depois, pelo dia adiante, era o mau humor, a mudez, as olheiras lustradas de roxo, um pouco de dispneia, o refúgio no isolamento, a repugnância ao estudo, o adormecer nas aulas.

Uma vez, um colegial, que ele amava imenso, disse-lhe por fim que sim, que estava pronto a corresponder-lhe, mas por forma que ninguém soubesse, e então — que fosse de noite ter com ele à cela. Combinado. O Sebastião deitou-se e esperou, todo a tremer, sem poder conciliar o sono, que o seu relógio marcasse as duas da manhã. Então levantou-se, abriu a porta da cela, aventurou um olhar de lince a todo o comprimento do longo corredor deserto, e saiu, cosido à parede, sorrateiro, os pés tartameleando perros no tijolo... Quando, passada uma hora, regressava ao quarto, pilhou-o a lanterna do prefeito de ronda. Foi castigado rudemente. Nem por isso deixou de continuar.

Aos dezasseis anos, saía do colégio para a vida exterior com as propensões viciosas pioradas. Alto, esgalgado, seco, — ardia-lhe na cintilação febril dos grandes olhos negros o furor perpétuo, mordente, insaciável do Desconhecido; e a cada um destes incêndios ferozes da pupila correspondia instintivamente um abrir das mãos descarnadas e um trémulo agitar dos dedos, nervoso, inflamado, adunco, uma como ânsia de apalpar a Vida. Conformação feminina: — cabeça pequena, ombros estreitos e descaídos, bacia ampla, rins muito elásticos, pés metendo para dentro. O rosto, de um alvo rosado lanugento e macio, tinha uma expressão menineira e ingénua, um ar tocante de fragilidade e doçura. Mas não inspirava simpatia; traía-lhe a inconsistência do carácter a linha apagada, miúda das feições. O olhar era deordinário baixo; não cruzava com firmeza; e sempre que sentia um outro olhar ainterrogá-lo fito, as pálpebras desciam logo, a garantir-lhe a inviolabilidadedo abismo.

Quis estudar mais. Continuou em Lisboa, cursando a Politécnica. No intervalo das aulas, ia pelas bibliotecas ou amarfanhava-se em casa, lendo tudo quanto podia apanhar. À medida que se lhe desdobrava o espírito, definia-se, afirmava-se-lhe a característica, roboravam-se-lhe as predileções plásticas, a qualidade sensorial dominante. No modalismo da natureza interessava-o principalmente o sensível, o tangível, a face pagã, material das coisas. Por isso, a despeito do seu fundo etiológico de pederasta, cultivava com frequência as mulheres. Mesmo entre uma mulher bonita e um efebo atraente, não hesitava: preferia geralmente a mulher. Procurava sempre e acima de tudo a linha, a forma, a beleza emocional aparente, quer fosse num seio virgem, quer num músculo bem fibrinado, quer num cristal perfeito, quer numa florinha delicada, num trecho vivo de paisagem, num encastelamento de nuvens fugidio.

28 de janeiro de 2013

Mitologia grega: "a obscena invenção de Ganimedes" e outros

Antínoo, mármore romano
do Museu Pio-Clementino, no Vaticano
"A obscena invenção de Ganimedes, príncipe troiano de uma beleza maravilhosa, arrebatado e transportado ao Olimpo pela águia de Júpiter para substituir Hebe, a hetera divina, no serviço particular dos deuses"
Na mitologia grega, Ganímedes era um príncipe de Tróia, por quem Zeus se apaixonou. Nas imediações de Tróia, o jovem cuidava dos rebanhos do pai, quando foi avistado por Zeus. Atordoado com a beleza do mortal, Zeus transformou-se em águia e raptou-o, possuindo-o em pleno voo. Ganimedes foi levado para o Olimpo e, apesar do ódio de Hera, substituiu a deusa Hebe e passou a servir o néctar aos deuses, bebida que oferece a imortalidade, derramando, depois, os restos sobre a terra, servindo aos homens. Hebe é a deusa da juventude, filha legítima de Zeus e Hera. Por ter o privilégio da eterna juventude, representava a donzela consagrada aos trabalhos domésticos. Assim, cumpria no Olimpo diversas obrigações: preparava o banho de Ares, ajudava Hera a atrelar seu carro e servia néctar e ambrosia aos deuses.


"Os grandes modelos de dedicação fraterna que nos oferece a História, — Castor e PóluxPirítoo e TeseuPilades e OrestesAlexandre e Efestion, Harmódio e Aristogíton, os dois filhos de Adiatórix, os nossos dois Ximenes, Antínoo e Adriano, Patroclo e Aquiles, — não passam os mais deles de espécimes aberrativos de mútuas complacências libidinosas."

Castor e Pollux ou Polideuces eram dois irmãos gêmeos da mitologia grega e romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente.

Na mitologia clássica, Pirítoo foi o rei dos Lápitas, antigo povo da Tessália. A história de Pirítoo está intimamente associado com a do grande herói ateniense Teseu, com quem desenvolveu uma forte relação de cumplicidade, após havê-lo desafiado. Prestes a enfrentarem-se na região de Maratona, Teseu e Pirítoo, seduzidos pela beleza um do outro, acabaram por apertar as mãos, jurando amizade eterna.
Na mitologia grega, Orestes era filho do rei Agamemnon de Micenas e da rainha Clitemnestra. Após o assassínio de Agamemnon, Orestes foi levado para a corte de Estrófio, onde cresceu em segurança na companhia do seu primo, e amigo, Pílades. A relação intensa entre Pílades e Orestes foi apresentada por alguns autores clássicos gregos como sendo de natureza romântica ou homossexual.

Heféstion Amintoros (356 a.C. - 324 a.C.), era filho de Amíntor, aristocrata macedónio e foi educado com Alexandre, o Grande, tendo tido também Aristóteles como professor. Acompanhou Alexandre na sua campanha asiática desde o princípio, combatendo como general na cavalaria de elite. O historiador Arriano de Nicomédia, uma das mais respeitadas fontes sobre Alexandre, escreveu que Heféstion foi a pessoa a quem Alexandre mais amou em toda sua vida.

Harmódio e Aristogíton, também conhecidos como os Tiranicidas, foram dois antigos atenienses que se tornaram heróis por terem matado Hiparco, filho de Pisístrato. De acordo com o relato do historiador Tucídides, na obra História da Guerra do Peloponeso, Hiparco teria por duas vezes feito propostas de carácter sexual a Harmódio, amante de Aristogíton, que as rejeitou. A relação de Harmódio e Aristogíton enquadrava-se no modelo pederástico existente na Grécia Antiga. Aristogíton era o amante mais velho (provavelmente com cerca de trinta anos) e Harmódio o adolescente, que deveria ser protegido.

Dyteutus (morreu em 34 d.c.), era o filho mais velho de Adiatórix, o governante da Galácia. Quando Dyteutus e o seu pai foram condenados à morte por Octaviano por serem partidários de Marco António, o irmão mais novo de Dyteutus ofereceu-se para ser executado no lugar do seu irmão mais velho. Inicialmente, Dyteutus recusou mas depois acedeu, persuadido pelo seu pai que a sua maior maturidade seria mais adequada à proteção e segurança da mãe e restante família após a execução. 

Antinoo (c. 111 d.c. – 130 d.c.) era um jovem natural da Bitínia que foi o favorito do imperador romano Adriano. Após a sua morte, por afogamento no Nilo, Adriano, inconsolável, elevou-o à categoria de deus e mandou construir templos e estátuas por todo o império romano para o glorificar e imortalizar.


Aquiles cuidando de Pátroclo ferido por uma seta,
medalhão de um vaso kilix da Àtica, c. 500 a.c.
Na mitologia grega, Aquiles foi um herói da Grécia, um dos participantes da Guerra de Tróia e o personagem principal e maior guerreiro da Ilíada, de Homero. Pátroclo ou Pátroklos é por vezes considerado amante de Aquiles, ao lado de quem lutou contra os troianos. Quando Aquiles se recusou a lutar devido à sua disputa com Agamemnon, Pátroclo, envergando furtivamente a armadura de Aquiles é morto por engano por Heitor. Depois de resgatar o corpo do amigo, que fora protegido no campo de batalha por Menelau e Ájax, Aquiles recusa-se durante algum tempo a sepultá-lo, mas é convencido quando uma aparição de Pátroclo lhe suplica a cremação, de forma a que a sua alma possa ser admitida no Hades. Aquiles inicia, então, as cerimónias fúnebres onde durante as quais sacrificava cavalos, cães, e doze troianos cativos antes de colocar o corpo de Pátroclo na pira crematória.



Fontes: