5 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 1


CAPÍTULO I


Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.

A cada minuto a agitação crescia. Pregoavam água fresca, pastelinhos, tâmaras. Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas suplicavam:  Psiu! Não sobes, ó catitinha?  aos janotas que passavam. Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado. A iluminação profusa dos dois teatros doirava, remoçava, erguia as caliças octogenárias das Variedades, acendia espelhamentos fulvos no basalto húmido da calçada, e fazia entrever na penumbra, pela rua acima, o renque tortuoso dos prédios que subiam. A espaços, um trem rodava; e no seu rápido passar entre os dois teatros, uma dupla fita de fogo lhe corria na fluidez do polimento.


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6 comentários:

João Roque disse...

Promete.
Bravo.

miguel disse...

excelente iniciativa, amigos. parabéns.

Joao Maximo disse...

Obrigado! Estamos a contar convosco para enriquecer a discussão da obra...

Joelma Oliveira disse...

Agradeço a ajuda, estou usando este livro em minha monografia, que fala sobre "os adultérios".

Anónimo disse...



Embora não o conheça, quero aqui parabeniza-lo por seus artigos e suas dicas; pois ajuda a informar a todos, no entanto, sinto falta de uma lista de livro mais clássicos sobre o Universo Gay... Tenho pouca informação sobre quem escreve sobre o tema a nível de mundo, e aproveito para indicar para os demais, os poemas de Konstantin Kavafys, com tradução de Jorge de Sena, pois a de Paulo Paz não é boa. Encontra-se em alguns sebos de Samba, caso não aja mais, escrevam para o meu e-mail que mando. Também quero aqui pedir a qualquer pessoa, que tenha a copia do filme Paris-Trombuctu com Michel Piccoli, que não tenho e vi apenas pequenos trechos. Michel Piccoli está maravilhosamente nu e já maduro.

Anónimo disse...

Aliás, quem tiver interesse em receber os poemas de Konstantin Kavafys, meu e-mail é abasbr@bol.com.br