7 de julho de 2012

Comentário

Esta nota refere-se à secção 1 (que pode ler aqui) e à secção 2 (que pode ler aquido capítulo 1 de O Barão de Lavos .


"Travelling" do filme A Invenção de Hugo, de Martin Scorcese

Repararam no efeito "zoom" dos primeiros parágrafos de O Barão?
Parecem as primeiras cenas de um filme moderno, um "travelling" que começa longe e alto (a multidão que se acotovela em frente aos teatros, a agitação, os gritos e pregões) e em que a câmara de filmar se vai aproximando num zoom cada vez mais intenso (uma carruagem que passa deixando um rasto de luz, uma "menina" à janela que convida os janotas que passam em baixo na rua) para destacar, já na secção 2, um único homem, no meio da multidão.


Fogo de artifício de escrita
Enquanto a secção 1 é exuberante, um fogo de artifício de escrita, usando ritmo rápido,  neologismos, imaginação, metáforas, multiplicidade de imagens, a secção 2 é mais calma, mais monótona e mais comum. Depois de ficarmos deslumbrados na secção 1, trata-se agora de nos espicaçar a curiosidade e de nos obrigar a continuar a ler para saber quem é esse homem estranho e irrequieto que anda entre a multidão, mas que não se mistura com ela (os seus objetivos diferem; ele busca a satisfação de um desejo sensual; ela busca divertimento no teatro).

Curiosa também a evocação dos cinco sentidos
O vento noroeste frio e húmido, o cheiro pelintra a iscas e refogado (parece quase a letra de um fado), os gritos e os pregões, a iluminação profusa dos teatros que doirava e remoçava. Falta apenas a menção explícita ao sabor, mas que quase se sente com o cheiro das iscas e do refogado.



O que se segue? Pois claro, saber quem é esse homem estranho que anda a caçar efebos à noite. E esse vai ser o objetivo da secção 3, já a seguir.

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