26 de agosto de 2012

Amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno

Esta nota refere-se à secção 8 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui) 

"numa acalmação voluptuosa e emoliente de banho a 33 graus."
emoliente (adj. 2 g.) 
1. [Medicina]  Que tem a propriedade de fazer amolecer.

"uma mutuação qualquer de ideias, o bálsamo de um comércio espiritual"
mutuação (mutuar + -ção) (s. f.) 1. Ato ou efeito de mutuar. 2. Troca.
Trata-se de uma forma muito elegante de dizer que o barão queria conversar: precisava de 'trocar' (mutuar) ideias, de acalmar pelo efeito de uma 'troca' (comércio) de ideias.

"o quarto de toilette"
toilette (palavra francesa) (s. m. s. f.) O mesmo que toalete; toalete (francês toilette) (s. f.) 1. Trajo; vestido (e seus acessórios). 2. Modo de vestir. 3. O ato de se vestir e preparar para aparecer. (s. m.) 4. Espécie de lavatório com espelho grande. 5. Aposento sanitário; casa de banho.
Dado que no final do século XIX poucas casas em Lisboa dispunham de água canalizada, é provável que "o quarto de toilette" se referisse à divisão da casa onde a baronesa se vestia.
Ver também "Lisboa não sejas francesa".

"um alto biombo de preço"
Não conseguimos encontrar nenhuma referência a biombos de preço. Alguma sugestão?
"de anjos em regueifas"
regueifa (árabe andaluz ar-rgaifâ, do árabe rgafa) (s. f.) 1. Pão de trigo feito em forma de rosca, geralmente entrançada. 4. [Figurado]  Prega ou dobra de gordura na cara ou no corpo.

Vaso etrusco de Vulci, c. 510-500 AC
Museu Britânico
"com dois vasos de Perusia ao alto, desgastados, sem brilho, granulosos, de um estilo puríssimo e de uma lendária antiguidade"
Perusia é o nome antigo da atual cidade italiana de Perugia, uma das 12 cidades confederadas da Etrúria. Os vasos que ladeavam a porta para o gabinete do barão poderiam ser, assim, antigos vasos etruscos (ver figura ao lado) ou talvez fossem apenas vasos imitando a arte etrusca, que esteve muito na moda no século XIX.

"dois magníficos consolos encostavam, abarbados de coisinhas preciosas"
consolo (s. m.) consola (s. f.) 2. Espécie de mesa, como tremó, para candelabro, jarras, etc.
abarbado (particípio de abarbar) (adj.) 1. Sobrecarregado.



Malaquite polida
"cinzeiros de malachite."
francês para malaquite (s. f.) 1. [Joalharia]  Pedra preciosa de cor verde. 
Ver também "Lisboa não sejas francesa".


"um contador índia embrechado, de pernas oblíquas, lineares, singelíssimas, todo atropelado na severa amarelidão da sua teca por correrias de monstrosinhos de ébano, rasteiros, ventrudos, rabiosos, a cauda em ponta de dardo, a língua a sair num jato da goela a escâncaras, o olho de marfim, branco e redondo"
contador (contar + -dor) (s. m.) 5. Móvel antigo em forma de armário com gavetas.
embrechado (s. m.) 1. Ornato de conchas ou búzios (incrustados em paredes de grutas, repuxos, etc.).
rabioso (adj.) 1. Raivoso; irritado. 2. Hidrófobo, danado.
escâncara (s. f.) 2. (Usado na locução à escâncara ou às escâncaras, descoberto, publicamente, com a porta ou a janela aberta.)
Trata-se, provavelmente, de um contador em estilo indo-português, em madeira de teca e incrustado a ébano e marfim com figuras de diabinhos irritados.


"a folhagem glabra e tenra de dois philodendrons naturais"
glabro (latim glaber, -bra, -brum) (adj.) 1. Que não tem pelo ou cotanilho (falando de órgãos vegetais que geralmente o têm); calvo. 2. Desprovido de pelos ou barba.
Philodendron é um género botânico pertencente à família Araceae. Popularmente, no Brasil, recebe o nome de imbé, possuindo algumas utilidades graças à sua relativa toxicidade. Em Portugal e em Angola é chamado filodendro.

"espadanava em leques luxuriantes de grossos vasos de faiança do Rato, postos sobre velhos tamboretes persas, de cedro e madrepérola."
espadanar (v. tr.) 2. Estender, espalhar (de modo que ocupe ampla superfície). 
tamborete (s. m.) 1. Mocho baixo ou cadeira de braços sem espaldar.
As "faianças do Rato" eram as da velha Real Fábrica de Louça, ao Largo do Rato, que laborou de 1767 a 1835 e introduziu em Portugal uma moderna fábrica de cerâmica, em contraponto às olarias artesanais que até então existiam. Ver também "Real Fábrica de Louças".

"Nos reposteiros, feitos de bourrette espessa cor de madeira e oiro"
bourrette (nome feminino) seda grosseira

"cortinas finíssimas de tule creme com aplicações a branco."
tule (s. m.) Tecido leve e transparente de seda ou algodão.

"um cavalete vieux chéne"
em francês: carvalho velho
Ver também "Lisboa não sejas francesa".

"uma tela, assinada Lupi, com um retrato em busto da baronesa"
Deve tratar-se de Miguel Ângelo Lupi (1826-1883), que foi professor de pintura histórica na Academia de Belas Artes de Lisboa e um dos mais destacados pintores portugueses da época romântica. 

"erguida nas mãos sobre a espalda cilíndrica, uma figura minúscula de mandarim, escarolada e risonha, posta graciosamente a espreitar."
espalda (s. f.) 1. Saliência no flanco de um bastião. 2. [Antigo]  Espádua, espaldar.
escarolar (v. tr.) 5. [Popular]  Tornar apurado, catita.
A espreitar, sobre as costas do sofá estava uma figura catita e risonha de um mandarim.

"Saboreava-se a quintessência do conforto e do agasalho naquele ninho mimado de elegância."
Segundo Aristóteles, o mundo seria composto de 5 elementos básicos: a Água, o Ar, o Fogo, a Terra e um hipotético 5º elemento, o éter, também chamado de quinta-essência ou quintessência.
Neste caso, aplica-se a palavra no sentido do que está para lá do palpável, isto é, o sublime, o celestial.

"procurou ler a Gazeta de Portugal, em que colaborava."
O jornal "Gazeta de Portugal" foi fundada por António Augusto Teixeira de Vasconcelos, em 1862, e publicou-se até 1866-1867. Teve entre os seus colaboradores figuras como Feliciano de Castilho, Camilo Castelo Branco, Gomes Leal e Tomás Ribeiro, entre outros. Eça de Queirós estreou-se na Gazeta de Portugal, já nos seus últimos números.

"ambos amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno"
amantar (v. tr.) Cobrir com manta.
Ambos rodeados por um ambiente confortável, perfumado e morno.

Fontes:



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