27 de agosto de 2012

Real Fábrica de Louças


Antiga Fábrica da Sedas, Rua da Escola Politécnica, s.a., ant. 1908, A3498 - AFML
Com a chegada da água, trazida pelo Aqueduto das Águas Livres, à zona do Largo do Rato, em 1748, o lugar tornou-se apetecível para a instalação de fábricas. A Fábrica Real de Lisboa mudou-se para o Rato, mas passado pouco tempo acabou por falir, obrigando à intervenção do Estado em 1757, que lhe alterou o nome para Real Fábrica de Sedas, tendo-a instalado no actual Largo das Amoreiras. O Marquês de Pombal, com o intuito de promover a modernização da manufactura nacional, pensou transformá-la em escola, o "Colégio das Manufacturas Nacional", o que acabou por não acontecer, embora a fábrica fosse transferida para um novo edifício na esquina do Largo do Rato com a Rua das Escola Politécnica (edifício da foto acima, que ainda existe). Em terrenos anexos à Real Fábrica de Sedas, foram mandadas instalar outras manufacturas, como a Fábrica dos Pentes e a Real Fábrica de Louças.

A Real Fábrica de Louças iniciou a laboração em 1767. A indústria da cerâmica estava pouco desenvolvida em Portugal, sobretudo quando comparada com o que se fazia no estrangeiro, pelo que se foram contratar mestres italianos para dirigir a produção. Segundo José Acúrsio das Neves,"Para fazermos alguma ideia da louça que antigamente se fabricava em Portugal, veja-se o que ainda hoje sai das nossas olarias e dê-se-lhe o desconto do muito que elas se tem aperfeiçoado depois que temos algumas fábricas dessa manufactura de melhor qualidade, as quais nunca entre nós passarão da mediocridade e assim mesmo tem origem italiana. A primeira destas fábricas foi a que se estabeleceu por conta do Estado e se anexou à das sedas no local, onde ainda existe junto à casa da água, no sítio do Rato, sendo o seu primeiro mestre Thomaz Brunetto, natural de Turim, com o qual se ajustaram condições em 1 de Agosto de 1767 e foi nomeado para contramestre outro italiano chamado José Veroli."


Vasos em faiança
A Real Fábrica de Louças do Rato começou por produzir louças e peças de faiança, "peças sumptuárias de altíssima qualidade, inspiradas na ourivesaria ou em modelos escultóricos", maioritariamente de pintura azul, sobretudo para serviço da corte e da aristocracia. A produção de azulejaria terá começado sob a direção de Sebastião Inácio de Almeida, após 1771, tendo-se a fábrica destacado pela produção de belos azulejos para a decoração de espaços interiores  (interessante apresentação sobre a azulejaria da Fábrica, com fotos, aqui) . Posteriormente, entre 1779 e 1816, para conseguir atingir um público mais vasto e aumentar as receitas, passaram a ser produzidas peças de faiança e azulejos de menor qualidade. Mas sem grande sucesso; a decadência estava instalada e, após sucessivas crises e alterações de gestão, a fábrica acabaria por ser encerrada em 1835.

O edifício da Real Fábricas das Sedas está, atualmente, classificado como Imóvel de Interesse Público. O edifício da Real Fábrica de Louças estava situado em parte do terreno onde hoje é a sede do Partido Socialista, o antigo Palácio do Marquês da Praia. 



Fontes:
  • Câmara Municipal de Lisboa
  • Museu Nacional do Azulejo, Lisboa 
  • Navegando na Educação, por Carlos Fontes
  • Noções históricas, económicas e administrativas sobre a produção e manufactura das sedas em Portugal e particularmente sobre a Real Fábrica do suburbio do Rato e sua annexas, por José Acúrsio das Neves, 1827
  • A Real Fábrica das Sedas e fábricas anexas - séculos XVIII e XIX, por Joaquim António Calado Cochicho 


26 de agosto de 2012

Amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno

Esta nota refere-se à secção 8 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui) 

"numa acalmação voluptuosa e emoliente de banho a 33 graus."
emoliente (adj. 2 g.) 
1. [Medicina]  Que tem a propriedade de fazer amolecer.

"uma mutuação qualquer de ideias, o bálsamo de um comércio espiritual"
mutuação (mutuar + -ção) (s. f.) 1. Ato ou efeito de mutuar. 2. Troca.
Trata-se de uma forma muito elegante de dizer que o barão queria conversar: precisava de 'trocar' (mutuar) ideias, de acalmar pelo efeito de uma 'troca' (comércio) de ideias.

"o quarto de toilette"
toilette (palavra francesa) (s. m. s. f.) O mesmo que toalete; toalete (francês toilette) (s. f.) 1. Trajo; vestido (e seus acessórios). 2. Modo de vestir. 3. O ato de se vestir e preparar para aparecer. (s. m.) 4. Espécie de lavatório com espelho grande. 5. Aposento sanitário; casa de banho.
Dado que no final do século XIX poucas casas em Lisboa dispunham de água canalizada, é provável que "o quarto de toilette" se referisse à divisão da casa onde a baronesa se vestia.
Ver também "Lisboa não sejas francesa".

"um alto biombo de preço"
Não conseguimos encontrar nenhuma referência a biombos de preço. Alguma sugestão?
"de anjos em regueifas"
regueifa (árabe andaluz ar-rgaifâ, do árabe rgafa) (s. f.) 1. Pão de trigo feito em forma de rosca, geralmente entrançada. 4. [Figurado]  Prega ou dobra de gordura na cara ou no corpo.

Vaso etrusco de Vulci, c. 510-500 AC
Museu Britânico
"com dois vasos de Perusia ao alto, desgastados, sem brilho, granulosos, de um estilo puríssimo e de uma lendária antiguidade"
Perusia é o nome antigo da atual cidade italiana de Perugia, uma das 12 cidades confederadas da Etrúria. Os vasos que ladeavam a porta para o gabinete do barão poderiam ser, assim, antigos vasos etruscos (ver figura ao lado) ou talvez fossem apenas vasos imitando a arte etrusca, que esteve muito na moda no século XIX.

"dois magníficos consolos encostavam, abarbados de coisinhas preciosas"
consolo (s. m.) consola (s. f.) 2. Espécie de mesa, como tremó, para candelabro, jarras, etc.
abarbado (particípio de abarbar) (adj.) 1. Sobrecarregado.



Malaquite polida
"cinzeiros de malachite."
francês para malaquite (s. f.) 1. [Joalharia]  Pedra preciosa de cor verde. 
Ver também "Lisboa não sejas francesa".


"um contador índia embrechado, de pernas oblíquas, lineares, singelíssimas, todo atropelado na severa amarelidão da sua teca por correrias de monstrosinhos de ébano, rasteiros, ventrudos, rabiosos, a cauda em ponta de dardo, a língua a sair num jato da goela a escâncaras, o olho de marfim, branco e redondo"
contador (contar + -dor) (s. m.) 5. Móvel antigo em forma de armário com gavetas.
embrechado (s. m.) 1. Ornato de conchas ou búzios (incrustados em paredes de grutas, repuxos, etc.).
rabioso (adj.) 1. Raivoso; irritado. 2. Hidrófobo, danado.
escâncara (s. f.) 2. (Usado na locução à escâncara ou às escâncaras, descoberto, publicamente, com a porta ou a janela aberta.)
Trata-se, provavelmente, de um contador em estilo indo-português, em madeira de teca e incrustado a ébano e marfim com figuras de diabinhos irritados.


"a folhagem glabra e tenra de dois philodendrons naturais"
glabro (latim glaber, -bra, -brum) (adj.) 1. Que não tem pelo ou cotanilho (falando de órgãos vegetais que geralmente o têm); calvo. 2. Desprovido de pelos ou barba.
Philodendron é um género botânico pertencente à família Araceae. Popularmente, no Brasil, recebe o nome de imbé, possuindo algumas utilidades graças à sua relativa toxicidade. Em Portugal e em Angola é chamado filodendro.

"espadanava em leques luxuriantes de grossos vasos de faiança do Rato, postos sobre velhos tamboretes persas, de cedro e madrepérola."
espadanar (v. tr.) 2. Estender, espalhar (de modo que ocupe ampla superfície). 
tamborete (s. m.) 1. Mocho baixo ou cadeira de braços sem espaldar.
As "faianças do Rato" eram as da velha Real Fábrica de Louça, ao Largo do Rato, que laborou de 1767 a 1835 e introduziu em Portugal uma moderna fábrica de cerâmica, em contraponto às olarias artesanais que até então existiam. Ver também "Real Fábrica de Louças".

"Nos reposteiros, feitos de bourrette espessa cor de madeira e oiro"
bourrette (nome feminino) seda grosseira

"cortinas finíssimas de tule creme com aplicações a branco."
tule (s. m.) Tecido leve e transparente de seda ou algodão.

"um cavalete vieux chéne"
em francês: carvalho velho
Ver também "Lisboa não sejas francesa".

"uma tela, assinada Lupi, com um retrato em busto da baronesa"
Deve tratar-se de Miguel Ângelo Lupi (1826-1883), que foi professor de pintura histórica na Academia de Belas Artes de Lisboa e um dos mais destacados pintores portugueses da época romântica. 

"erguida nas mãos sobre a espalda cilíndrica, uma figura minúscula de mandarim, escarolada e risonha, posta graciosamente a espreitar."
espalda (s. f.) 1. Saliência no flanco de um bastião. 2. [Antigo]  Espádua, espaldar.
escarolar (v. tr.) 5. [Popular]  Tornar apurado, catita.
A espreitar, sobre as costas do sofá estava uma figura catita e risonha de um mandarim.

"Saboreava-se a quintessência do conforto e do agasalho naquele ninho mimado de elegância."
Segundo Aristóteles, o mundo seria composto de 5 elementos básicos: a Água, o Ar, o Fogo, a Terra e um hipotético 5º elemento, o éter, também chamado de quinta-essência ou quintessência.
Neste caso, aplica-se a palavra no sentido do que está para lá do palpável, isto é, o sublime, o celestial.

"procurou ler a Gazeta de Portugal, em que colaborava."
O jornal "Gazeta de Portugal" foi fundada por António Augusto Teixeira de Vasconcelos, em 1862, e publicou-se até 1866-1867. Teve entre os seus colaboradores figuras como Feliciano de Castilho, Camilo Castelo Branco, Gomes Leal e Tomás Ribeiro, entre outros. Eça de Queirós estreou-se na Gazeta de Portugal, já nos seus últimos números.

"ambos amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno"
amantar (v. tr.) Cobrir com manta.
Ambos rodeados por um ambiente confortável, perfumado e morno.

Fontes:



21 de agosto de 2012

A sala do Barão (modelo)


O recanto onde a Baronesa estava recostada na sua chaise-longue a ler
Madame Bovary, protegida das correntes de ar por um biombo de preço

O fauteil onde o Barão se sentou a ler a Gazeta de Portugal e a porta do toilette
ladeada por duas colunas de pau-preto encimadas por vasos de Perusia

As duas janelas de sacada em bourette e tule, ladeadas de dois philodendrons,
e o cavalete com o retrato da Baronesa

Vista geral do modelo
Nota: a descrição do início do capítulo 2, em que Abel Botelho explica pormenorizadamente como era a sala da casa do Barão, onde a Baronesa lia Madame Bovary, reclinada na sua chaise-longue, à luz de um candeeiro de bomba, é tão detalhada que foi suficiente para que nós construíssemos um modelo aproximado! Clique nas fotos para fazer zoom.

18 de agosto de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 8


O barão, fatigado, arreliado, quente, o coração palpitando forte, e o cérebro e as mãos a arder, saboreava um alívio e uma doçura imensa na tranquilidade muda do recinto. Mal apaziguado ainda das tumultuárias emoções da noite, o remanso dormente da sua casinha embalava-lhe a carne estimulada numa acalmação voluptuosa e emoliente de banho a 33 graus. Mas não era bastante; se os sentidos se lhe normalizavam, a alma continuava estrebuchando numa exaltação dolorida. O silêncio exasperava-o. Queria um derivativo psíquico, uma mutuação qualquer de ideias, o bálsamo de um comércio espiritual, sincero, íntimo, todo afabilidade e abandono.

Por isso aventurou para a baronesa, numa súplica impertinente:
— Então, não me dizes nada?... Deixa agora o livro. 
Ao que ela, contrariada, sem desfitar da leitura:
— Ora, muito obrigada. Não andaste por lá sem mim, entretido até agora?... Pois deixa-me ler.
E a boca vincava-se-lhe aos cantos, muito acre, e as veiazitas da face coravam-se-lhe de roxo, ligeiramente engrossadas.

Portanto, o silêncio pesou novamente, esmagador, absoluto, na quietação implacável da saleta. Ao seu cantinho predileto, enovelada sobre a chaise-longue, a baronesa não despegava de ler. Guardava-a do ar da porta próxima que, do lado da cabeceira, dava para o quarto de toilette, um alto biombo de preço, com os seus cinco panos, de cetim preto, sobriamente bordados de aves pernaltas, gramíneas capilares e florinhas ténues, em matizes de um realce maravilhoso, em desenhos da mais solta e delicada fantasia. Do lado da cauda, a chaise-longue entestava com uma parede toda lisa, no sentido do comprimento da casa, tendo um grande espelho doirado ao centro; distribuídos em volta, na mais harmoniosa das desordens, quadros, suspensões, bugigangas, velhas porcelanas; encostadas, duas estantes com livros; e, em ângulo contra o extremo oposto, um piano de cauda sobre um estrado. Era uma parede interior.

Seguia-se-lhe outra mais pequena, adornada também de quadros e com uma porta fronteira à do quarto de toilette, dando para o gabinete de trabalho do barão. Esta porta era flanqueada por duas grandes colunas torcidas de pau-preto, farfalhudas de parras, de cachos, de anjos em regueifas, com dois vasos de Perusia ao alto, desgastados, sem brilho, granulosos, de um estilo puríssimo e de uma lendária antiguidade; e às duas porções laterais da parede dois magníficos consolos encostavam, abarbados de coisinhas preciosas, — pagodes de marfim filigranado, retratos queridos em molduras de pelúcia, miniaturas de esmalte, bronzes, conchas, lacas, cinzeiros de malachite.

Depois, paralela à parede lisa interior, havia a exterior correspondente, com duas amplas sacadas dando sobre o jardim. No intervalo destas, ressaltava um contador índia embrechado, de pernas oblíquas, lineares, singelíssimas, todo atropelado na severa amarelidão da sua teca por correrias de monstrosinhos de ébano, rasteiros, ventrudos, rabiosos, a cauda em ponta de dardo, a língua a sair num jato da goela a escâncaras, o olho de marfim, branco e redondo. Para cima, vestia a parede um espelho esguio, de moldura de ébano, biselado.

Aos dois cantos, para lá das sacadas, a folhagem glabra e tenra de dois philodendrons naturais espadanava em leques luxuriantes de grossos vasos de faiança do Rato, postos sobre velhos tamboretes persas, de cedro e madrepérola. Nos reposteiros, feitos de bourrette espessa cor de madeira e oiro, sinuosava também um desenho persa complicado. Sobre os vãos das sacadas, a temperar a luz externa, desciam muito sobrepostas, orlando a bourrette interior, cortinas finíssimas de tule creme com aplicações a branco. Junto da porta do toilette, um pouco à frente, um cavalete vieux chéne sustinha, meio afofada nas pregas de uma colcha secular da Índia, uma tela, assinada Lupi, com um retrato em busto da baronesa. E por baixo do grande espelho doirado espreguiçava-se um largo sofá de pelúcia de linho azul-escuro, esquadrado em volta por uma tira de seda cor de oiro velho, e tendo a um lado, erguida nas mãos sobre a espalda cilíndrica, uma figura minúscula de mandarim, escarolada e risonha, posta graciosamente a espreitar.

Meia dúzia de móveis mais, arrastando ao acaso na alcatifa, cujo tom sanguíneo dava um destaque vivo de petulância à cor tranquila do recinto. No papel cinzento-adamascado das paredes alisavam-se lampejos de aço, esbatidamente. Do teto branco de estuque um lustre pendia, de bronze. Saboreava-se a quintessência do conforto e do agasalho naquele ninho mimado de elegância. E todavia o barão estava mal, sentia frio. Era tão flagrante, tão profunda a discordância entre a brutalidade animal dos seus instintos e a doce quietação, o familiar abandono, a feminina graça de tudo quanto o rodeava, que, agora, dissipada a primeira grata impressão da entrada, aquela pacificação hostilizava-o, arreliava-o, dava-lhe toda branca, em cheio, nas turbulências sinistras da sua alma doente, e fazia-o sofrer.

Ergueu-se de chofre e começou a passear. Então a baronesa, breve: — Tens aí os jornais para ler.
O barão, maquinalmente, veio sentar-se de novo, junto da luz, no mesmo fauteuil, e procurou ler a Gazeta de Portugal, em que colaborava.

E assim, na mudez discreta da noite, na voluptuosa penumbra da saleta, aqueles dois esposos, na aparência tão próximos, ambos novos, ambos amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno, obstinavam-se longe, muito longe um do outro; ele galopando o destrambelhamento do seu vício; ela deliciando a imaginação e envenenando os sentidos na tragédia dissolvente de Madame Bovary.

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11 de agosto de 2012

Lisboa não sejas francesa

Esta nota refere-se à secção 7 (que pode ler aqui) 


A influência francesa começou a manifestar-se fortemente após a Revolução Francesa. O fim da monarquia absolutista e o novo espírito de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" impressionou e inspirou povos no mundo inteiro, marcando o fim de uma época histórica. Durante a "Belle Époque", de finais do século XIX até à I Guerra Mundial, a França era o expoente mundial a nível da cultura (literatura, pintura. música, filosofia) mas também na moda, design, estilo de vida,...

Em Portugal, pela relativa proximidade geográfica e também com consequência das "Invasões Francesas", a influência francesa fez-se sentir mais fortemente e até mais tarde. A arte, a moda e o bom gosto vinham de França e os artistas e pensadores nacionais iam para Paris, o "centro do mundo". A língua portuguesa, que já era influenciada pela língua francesa, incorporou então inúmeros "galicismos" (exemplos: abajur, avenida, balé, bibelô, bidé, buquê, butique, bufete, champanhe, chalé, camioneta, chique, chofer, croché, envelope, fetichista, garagem, garçom, guiché, maionese, maquilhagem, omelete, raqueta, restaurante, toalete, vitrina).

Nesta secção de O Barão de Lavos temos vários exemplos, em rápida sucessão, da influência francesa: a baronesa lia Madame Bovary, de Flaubert, recostada numa chaise-longue à luz de um candeeiro de bomba; o barão sentou-se num fauteuil.

A cultura francesa continuou a ser a maior referência da cultura portuguesa mesmo após a II Guerra Mundial (quando começou a perder para a cultura anglo-americana) como pode ser exemplificado pela canção Lisboa Não Sejas Francesa (música de Raul Ferrão e letra de José Galhardo) originalmente escrita para a opereta A Invasão, estreada em 1952 no Teatro Avenida, em Lisboa, e popularizada pela grande Amália Rodrigues:

Lisboa não sejas francesa / Com toda a certeza / Não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha / Vaidosa, alfacinha, / Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados /Que dizem, coitados, /Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa / Tu és portuguesa / Tu és só pra nós


Fontes:


6 de agosto de 2012

Retrospetiva do capítulo 1

Verdi por Giovanni Boldini, 1866
O capítulo 1 de O Barão de Lavos é assim como uma abertura de uma ópera de Verdi: dá o tom geral da obra e faz uma antevisão dos principais temas, espevitando a curiosidade pelo que se vai seguir. O Barão é-nos apresentado como o protagonista principal do romance e a pederastia, o seu tema central.

O Barão é caraterizado como um personagem nervoso, sensual, manhoso, hipócrita, que padece de um 'vício secreto' (é um 'caçador de efebos') de que se envergonha, sobretudo quando se compara com a vida exemplar e boa do casal Paradela, com quem se encontra inesperadamente a meio da sua 'caçada'. Mas mesmo quando a sua consciência se depara tão frontalmente com o 'bem', não consegue resistir a regressar logo ao 'vício' que o corrompe e empolga.

A pederastia do Barão, por ser moralmente criticada e porque percebemos logo nesta 'abertura' que o Barão é casado, anuncia o drama, que pode degenerar mesmo em tragédia (será que vai haver mortos ou feridos?).

O cenário é a cidade de Lisboa do final do século XIX, apresentada como pobre, decadente e provinciana. Os teatros estão envelhecidos e os espetáculos são rotineiros, as ruas enlameadas, uma multidão de vendilhões reles pulula entre os espetadores, em pleno Inverno os rapazes andam pelas ruas batidas pelo nordeste frio em corpinho bem feito e vendem-se a 'degenerados' que os assediam sexualmente.

A 'coda' do capítulo 1 deixa questões em aberto (o que terá o Barão combinado com o rapaz e será que ele vai cumprir o prometido, ou irá faltar?), o que é muito 'conveniente' do ponto de vista literário, uma vez que impulsiona o leitor a virar a página...

Fontes:
Wikipedia

Figurinha de Saxe, luminosa e frívola

Esta nota refere-se à secção 7 de O Barão de Lavos (que pode ler aqui) 

"— Boa noite, Vivi; —"
A mulher do barão chamava-se Elvira, daí o diminutivo "Vivi".

"deixava cair maquinalmente um beijo nos crespos eriçados sobre a testa pequenina da baronesa"
crespos (s. m. pl.) 6. Rugas, pregas, franzidos.
eriçar (origem duvidosa) (v. tr. e pron.) Deixar ou ficar (pelo ou cabelo) espetado ou levantado.
Serão as rugas da testa da baronesa, ligeiramente franzidas pela leitura, ou alguns dos seus cabelos soltos sobre a testa?

"que lia com interesse Madame Bovary"
Madame Bovary é um dos mais famosos romances do francês Gustave Flaubert, sobre uma mulher que busca no adultério a liberdade e a felicidade que não encontra no casamento. Este romance provocou enorme escândalo ao ser publicado em 1857. Não deixa de ser irónico que a baronesa esteja a ler "com delícia" um romance sobre adultério, quando já no capítulo I soubemos do comportamento do barão. As nuvens negras que anunciam a tempestade vão-se acumulando no horizonte...

"afundou-se pesadamente na macieza de um fauteuil"
fauteuil (palavra francesa) (s. m.) 1. Poltrona. 

"E enovelou-se toda na cabeceira da chaise-longue"
chaise longue (palavra francesa) (s. f.) Cadeira para reclinar o corpo.
Ver também "Lisboa não sejas francesa".

"uma mesinha baixa de charão"
charão (s. m.) 1. Verniz de laca da China e do Japão.

"numa claridade repousada e honesta de interior de Gerard Dou ou de Van Eyck"
Gerard Dou ou Gerrit Dou (Leiden, 1613 - Leiden, 1675) foi um pintor e gravador dos Países Baixos, especialista em  naturezas-mortas e objectos de uso doméstico, ricos em pormenores e pequenos detalhes.
Jan van Eyck (Maaseik?, c. 1390 — Bruges, 1441) foi um pintor flamengo do século XV, caracterizado pelo naturalismo, imperando na sua obra meticulosos pormenores.

"picantes à força de subtilização e de nervos"
subtil (latim subtilis, -e) (adj. 2 g.) 1. Composto de partes finas, delgadas, ténues. 2. Fino, delgado, simples. 3. Extremamente miúdo; que escapa ao tato. 4. Penetrante. 5. Que se insinua ou infiltra rapidamente; ativo, enérgico. 6. [Figurado]  Que tem muita penetração ou agudeza; perspicaz, penetrante, hábil, talentoso. 7. Artificioso, caviloso. 8. Engenhoso, destro, fino, arteiro. 9. Manso, leve.
Muitas interpretações possíveis, neste caso... podemos ter, por exemplo, uma baronesa subtilmente mordaz e impulsiva.

Le Marquis, porcelana Meissen porcelain,
modelado por P. Reinicke, cerca de 1757
"figurinha de Saxe, luminosa e frívola"
Estas figurinhas de Saxe devem ser as famosas porcelanas de Meissen, que dominaram a indústria da porcelana na Europa até meados do século XVIII. As suas figurinhas são brilhantes, luminosas e de cores suaves, com formas arredondadas e poses muito expressivas, frequentemente clássicas, palacianas ou pastoris. Eram muito prezadas para decoração e como símbolo de status social (e por isso sujeitas a cópia e falsificação). Atualmente podemos apreciar excelentes exemplares de figurinhas de Saxe nos melhores museus de artes decorativas do mundo, como o V&A Museum de Londres, sendo ainda hoje objetos de coleção muito procurados.

"o nariz, impercetível, fino, erguia-se na base em arrebite"
arrebitar (v. tr.) 1. Virar para cima a ponta ou extremidade de. (v. pron.) 2. Espevitar-se. 3. Mostrar-se soberbo.

"e pela curva da face, de uma alvura crassa de leite, subia de cada lado, do mento às fontes, a sinuosidade azul de uma veia tenuíssima"
mento (s. m.) 1. Parte inferior do rosto


Fontes:



29 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 7


CAPÍTULO II

Quando entrou em casa, na saleta habitual dos serões, o barão proferiu, no tom frio e breve de quem se desobriga de um dever banal: — Boa noite, Vivi; — enquanto deixava cair maquinalmente um beijo nos crespos eriçados sobre a testa pequenina da baronesa, que lia com interesse Madame Bovary. Depois, logo a seguir, afundou-se pesadamente na macieza de um fauteuil.
— Boa noite... Então que tal? — retorquiu a baronesa, erguendo indolente os olhos do livro e sorrindo para o marido com uma indiferença amável.
— Uma sensaboria... Não volto lá tão cedo. Bem fizeste tu em preferir àquela palhaçada tão vista o conchego da tua casinha e a companhia leal dos teus livros.
— Ah! e então que livro, este!.... — exclamou a baronesa num profundo acento admirativo, retomando com delícia a leitura interrompida.
— Gostas?
— Nunca li nada que me tocasse tanto! — E enovelou-se toda na cabeceira da chaise-longue, uma das pernas dobrada, colhida graciosamente sob o tronco, num gesto friorento de avezita; as mãos sobre o regaço, preguiçosas, deixando os dedos jogar distraidamente com os anéis; as pupilas traçando num vaivém rápido o paralelismo das linhas que iam devorando no livro, poisado sobre uma mesinha baixa de charão.
 Sabes tu quem eu vi?... — tornou o barão, querendo armar conversa. — Os Paradelas.
Porém a baronesa, cortando logo:
— Sim, sim, mas deixa-me ler.

O gás estava apagado. Apenas alumiava a saleta um alto candeeiro de bomba, de bronze esmaltado, estilo bizantino, com o globo fosco vestido por um para-luz tenuíssimo de papel-japão. Estava sobre a mesinha, junto ao livro, vertendo em torno um cone muito restrito de luz. O maior do aposento, — aguarelas, chinesices, faianças ornando as paredes; fotografias, revistas ilustradas, álbuns, quinquilharias galantes abarbando os consolos, as estantes polidas a negro, o contador embrechado; móveis esparsos numa desordem estudada, o piano, flores, porcelanas caras, — mergulhava tudo discretamente na penumbra, tinha os contornos adormecidos num claro-escuro de pacificação e castidade. Só àquele cantinho morno e preferido, entre o biombo e a parede, na incidência próxima do candeeiro, realçavam, numa claridade repousada e honesta de interior de Gerard Dou ou de Van Eyck, um trecho da alcatifa, curvo e afilado como um crescente, o espelhamento opalino de um velho prato suspenso da parede, um ou outro avoejo exótico de laca e oiro no verniz da mesinha acharoada, e a viva mancha adorável da cabecita pequena e redonda da baronesa.

Era um desses tipos de mulher delicados, miudinhos, frágeis, picantes à força de subtilização e de nervos, que apetece à gente ao mesmo tempo contrariar e amar servilmente, acariciar e destruir. Uma figurinha de Saxe, luminosa e frívola. Os olhos, grandes, entre o cinzento e o verde, um tudo-nada metálicos, tinham uma translucidez enxuta, saudável, forte, que raro, num trémulo conchegar de pálpebras, humedecia um espasmo breve de volúpia; o nariz, impercetível, fino, erguia-se na base em arrebite, num leve jeito provocante, entre malicioso e altivo; na testa, desanuviada, lisa, pequenina, não havia notícia da passagem de um pensamento grave, de um minuto reflexivo, de uma justa noção do Dever; e pela curva da face, de uma alvura crassa de leite, subia de cada lado, do mento às fontes, a sinuosidade azul de uma veia tenuíssima.

Um conjunto fascinante de mocidade e graça, de petulância e mimo.

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23 de julho de 2012

Como paxaste?

Esta nota refere-se à secção 6 (que pode ler aqui) 


Mercearia antiga
"Numa mercearia ao lado, a gente da geral comia pão com queijo e decilitrava." 
decilitrar (v. intr.) Beber vinho decilitro a decilitro; beberricar.
A geral era (e ainda é, nalguns casos restantes) a zona de bilhetes mais baratos das salas de espetáculos, em que por vezes se tinha má visibilidade para o palco ou em que não havia cadeiras, e os espetadores eram obrigados a ficar de pé. Quem comprava bilhete para a geral era o "povo", as pessoas de menos posses, os que no intervalo saíam para a mercearia ao lado para comer pão com queijo e beber vinho tinto em "copos de dez" (dez centilitros, ou seja um decilitro). Atualmente já não se come nas mercearias e o "pessoal" passou a ir "morfar" "sandes" às "roulotes".

"Os garotos insinuavam-se pelos grupos, gritando:  —  Senhas mais baratas... Quem vende a senha?"
Julgamos que serão senhas distribuídas no intervalo a quem saía para a rua, para garantir que no recomeço só entrava quem tivesse pago bilhete. Ao que parece, havia à época um mercado para estas senhas: quem já não pretendesse regressar depois do intervalo, podia vender a sua senha a quem quisesse assistir à segunda metade do espetáculo sem ter que pagar o preço do bilhete inteiro.

"— Como paxaste?... comentou agre o garoto."
Trata-se de uma expressão informal que encontrámos em revistas e jornais, sobretudo de caráter satírico ou cómico, desde os finais do século XIX até ao primeiro quartel do século XX, e que deixou de ser usada. Será equivalente ao atual "querias?" Curiosamente, a linguagem abreviada dos SMS retomou o "paxaste" como forma rápida de escrita de "passaste".

"— O senhor deixe-me... já le disse."
O rapaz era respeitoso (trata o barão por "senhor"), mas não tinha muita educação (diz "le" em vez de "lhe").

"O rapaz encarou-o muito, entre compassivo e espantado; pareceu refletir; e por fim resmoneou:"
resmonear (v. intr.) Resmungar.

"E a arenga continuava"
arenga (s. f.) 1. Alocução. 2. Discurso enfadonho. 3. Exposição fastidiosa.

"A certas frases, que o barão lhe coava mais baixo no ouvido"
coar (v. pron.) 6. Penetrar, vencendo obstáculos. 7. [Figurado]  Insinuar-se.

"Um Demóstenes do vício." 
Demóstenes (nasceu em 384 a.C. e morreu 322 a.C.) foi um dos maiores oradores da Grécia Antiga.

"o longo bigode cofiado tremulamente pelos dedos emaciados."
cofiar (do francês coiffer, pentear) (v. tr.) 1. Alisar ou afagar com a mão (o cabelo ou a barba).
emaciado (adj.) Magro, desfigurado (por doença).

"a multidão vinha escoando do Salitre para o largo, apressada, muda, apagada na monotonia dos abafos."
Que bela forma de descrever as pessoas que, em fim de festa, ao sair, se deparam com uma noite escura, fria e chuvosa no seu caminho para casa.

"Crescia um grande ruído de pés espatinando a lama." 
Não conseguimos encontrar em dicionário, embora se encontre noutras obras de Abel Botelho e de Fialho d'Almeida. Talvez seja, neste caso, usado com o sentido de patinhar?
patinhar (v. tr.) 4. Deixar marcas de patas ou pés em.

"Raro, algum grupo de rapazes, lestos, corpinho bem feito"
Esta expressão, que ainda é usada atualmente, indica a utilização de pouca roupa sobretudo quando as condições meteorológicas aconselham o contrário. Por exemplo, "queres ir em corpinho bem feito, com este frio?" (em A pedinte de Lisboa, de Alfredo Possolo Hogan, 1859).

"o trilo de uma risada."
trilo (s. m.) 1. [Música]  Ornato na execução musical que consiste na alternação muito rápida, mais ou menos prolongada, de duas notas imediatas. 2. Trinado; gorjeio.

Fontes: