7 de julho de 2012

Noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade


Esta nota refere-se à secção 1 do capítulo 1 de O Barão de Lavos que pode ler aqui.


Cabriolas pelas Escola Equestre Portuguesa, na Feira da Colegã


"noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade"
Esta foi a expressão que mais nos intrigou nestas primeiras linhas de O Barão. 

Mas depois pensámos que as cabriolas podiam ser as da equitação, os saltos em que o cavalo se eleva completamente no ar, ao mesmo tempo que dá um coice violento (ver vídeo acima), e sobrescrito, por seu lado, pode significar não só o envelope em que se enviam as cartas, mas também o endereço das mesmas ("sobre escrito" = "escrito por cima de" ?). Poderíamos, assim, ler esta expressão como: "noite de coices endereçados à fina sociedade", ou seja, uma noite em que a fina sociedade vai ser posta a ridículo. 


Acrobata com bola (Picasso, 1905)


No entanto, ao investigar a história do Circo Price (ver aqui) descobrimos que este tinha sido fundado 7 anos antes desta cena de O Barão e tinha ficado famoso pelos ginastas e acrobatas que Thomas Price tinha trazido consigo do estrangeiro. O sucesso entre os jovens da "fina sociedade" lisboeta foi tanto que foram fundados vários ginásios em Lisboa, entre os quais o Real Gymnásio Clube Português (o grande Ginásio Clube Português da atualidade). Uma "noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade" poderia ter uma leitura mais literal: uma noite de saltos, cambalhotas e piruetas (cabriolas) destinada a atrair a fina sociedade lisboeta.




Qual vos parece que seja a interpretação mais adequada? Alguém sugere outra?



Fontes:
Dicionário online Priberam
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 2


Um homem vagueava ali, contudo, que não parecia dar-se grande pressa em entrar. Ia e vinha, parava, esculdrinhava a multidão, passava automaticamente de grupo a grupo, nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém. No olhar, dilatado e teimoso, duma secura inflamada e vítrea, fulgurava ardente a obstinação de um desejo; ao passo que na boca a brasa do charuto, num labirinto febril de pequeninos movimentos bruscos, denotava que os lábios e as maxilas eram sacudidos nervosamente por uma forte preocupação animal.


Devia de ser rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, levemente penujosas, dos adolescentes. Fitava-os um instante, com uma fixidez gulosa e sombria, e desandava logo para outro lado. Percebia-se mesmo, ao cabo de alguns minutos de observação, que ele não procurava determinadamente alguém. Ao contrário, parecia comparar, confrontar, escolher. Se havia garotos por junto dos quais passava rápido, após um olhar furtivo, havia também outros a cuja descoberta lhe arrepanhava as faces a mais pungente sensualidade. E então, com estes, não havia meio que não empregasse para lhes ferir a atenção. Roçava-os de leve com o braço; tocava-lhes a coxa com a bengala, como distraído; postava-se-lhes ao lado, fitando-os com o olhar seco e vítreo, persistente; soprava-lhes na nuca uma baforada de fumo, ao passar. Todo este jogo, — é de saber —, feito sempre sonsamente, com cautelas de hipócrita, com astúcias felinas, todo sabiamente intervalado com miradas perscrutadoras em torno... não fosse por aí aparecer e surpreendê-lo alguém conhecido.


E, de cada vez que o moço interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, o noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz melancolia.

O Circo Price e o Theatro Variedades

Theatro Circo Price
No final do século XIX ainda não havia cinema, televisão, consolas de jogos e internet e as melhores alternativas para passar uma noite agradável eram visitar amigos, dançar nalgum baile ou assistir a algum espetáculo de teatro, música ou dança. Todas as cidades e vilas de Portugal tinham então o seu teatro e a sua sociedade filarmónica e a capital tinha ampla oferta tanto de espetáculos como de salas. 


Interior do Theatro Circo Price
O Theatro Circo Price veio ocupar, em 1860, a primeira praça de touros que existiu em Lisboa. A iniciativa foi do inglês Thomas Price, que com o seu grupo de ginastas e acrobatas estrangeiros impressionou a juventude lisboeta da época e esteve na origem do atual Ginásio Clube Português. Como referiu Eça de Queirós, em Os Maias, o Circo Price era um espaço extremamente popular, mas um lugar pouco confortável e abafado. Embora sendo originalmente uma sala especializada em circo e ginástica, o Circo Pride passou depois a apresentar comédias, zarzuelas, operetas e outros espetáculos populares à época.
Com a sua demolição, em 1879, para construção da Avenida da Liberdade, ficou um vazio na capital que só viria a ser colmatado pelo Coliseu dos Recreios. Segundo a revista Ilustração Portugueza"O Circo Price ficava situado do lado esquerdo da calçada do Salitre, defronte do velho theatro das Variedades. Era mais amplo que o actual Colyseo dos Recreios, e a sua enorme cúpula assentava sobre grossas vigas de madeira.

Teatro das Variedades
O Teatro das Variedades (ou das Variedades Dramáticas) veio substituir, por volta de 1859, o Teatro do Salitre,  o teatro mais antigo da zona, que havia sido inaugurado mais acima, na Calçada do Salitre, em 1783 e tinha entrado em decadência após ter estado encerrado devido à febre amarela. Dedicou-se sobretudo à comédia, mas apresentou óperas, dramas, vaudevilles, danças, malabarismos e apresentações de animais e conseguiu atrair diversas camadas da população. Segundo o DN de 7/12/1871, "Tudo quanto há conhecido nas letras e nas artes dentro do país tem feito coisa naquele teatro; representou-se ali o Frei Luís de Sousa pela primeira vez em teatro público; a Soller estreou-se ali; dali saiu Isidoro; ali foram directores, numa empresa de accionistas, durante um ano ou dois, o conde de Farrobo, D. José de Almada, Francisco Palha. Mais tarde – e não há mais de quatro ou cinco anos –, esse mesmo Isidoro, o nosso Isidoro da Trindade, sendo empresário ali, foi-se à tragédia de D. Inês de Castro e desmanchou-lhe os versos por entender que no Salitre tudo se diz melhor em prosa; e fê-la representar assim.Em 1879, por ordem de Rosa Araújo, então presidente da Câmara, o Circo Price e o Teatro das Variedades foram expropriados e demolidos no contexto das obras de abertura da atual Avenida da Liberdade. O Teatro das Variedades, do Parque Mayer (hoje também em decadência) foi nomeado para evocar o antigo Variedades.

Mais informação:
Júlio César Machado Cronista de Teatro, por Licínia Rodrigues Ferreira 
Marcas das Ciências
Revelar Lx

6 de julho de 2012

Neologismos e expressões


Esta nota refere-se à secção 1 do capítulo 1 de O Barão de Lavos que pode ler aqui.

"Naquela noite de Março, desabrida e húmida "
desabrido (adj.): 1. Áspero; rude; ríspido. 2. Desagradável.

"uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre"
álacre (adj. 2 gén.): 1. Muito alegre. 2. Risonho e entusiasmado.

Acendendo um candeeiro a gás no Terreiro do Paço
(segunda metade do séc. XIX)
"os seus bicos de gás festeiros, a que as vesgastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto"
A grafia da 2ª edição corrigida de 1898, que mantivemos, é "tremelilhar". Em edições posteriores a grafia surge como "tremilhar".
Sobre tremilhar, citamos Mário de Carvalho, em Ciberdúvidas da Língua Portuguesa: "Abel Botelho é um interessante escritor do século XIX, a que regresso de vez em quando, neste jeito egoísta de surpreender um belo esforço de prosa, aprender com a construção de uma cena, ou, ao contrário, renovar um memento sobre os excessos com que certos boleios nos podem perder. Não é tempo de conversarmos sobre o autor, que talvez fique para outra ocasião, mas sobre o vocábulo tremilhar que eu surpreendi logo nas primeiras linhas e que não encontrei em vários e venerandos dicionários, por mais que puxasse por eles. Tratava-se de uma cena nocturna, cheia de expressividade e de rasgos descritivos, movimento e repouso, claros e escuros, sombras e espelhamentos. Após um excelente diálogo, muito alusivo, surge o vocábulo tremebrilhar, que é também um neologismo de Abel Botelho. Os dicionários abonam tremeluzir, tremelear, tremelicar, mas omitem as formas encontradas por Abel Botelho, que foi quem as cunhou, para usar uma tradução do vocábulo inglês to coin, própria destas ocasiões."


"a toda a largura do macadame"
macadame (subst. masc.): Sistema de pavimento ou calcetamento de ruas ou estradas por meio de brita e saibro que se recalca com um cilindro.

"os alizares castanhos dos postigos"
alizar (subst. masc.): Guarnição de madeira que cobre as ombreiras das portas e janelas (mais usado no plural)

Fontes:

A Rua do Salitre em 1867

Projeto de Ressano Garcia para a
Avenida da Liberdade
Em 1867, a Calçada do Salitre (depois promovida a Rua) descia do Largo do Rato até à Praça da Alegria de Baixo e prolongava-se até à rua das Pretas (clicar mapa ao lado para ver em ponto grande). 
Nesta altura ainda não tinha sido aberta a Avenida da Liberdade e quem caminhasse a partir do Rossio para norte, passaria pela Rua do Príncipe (em frente à atual Estação do Rossio) e chegaria ao Largo do Passeio Público (o jardim onde as damas de sociedade exibiam as suas toilettes).
Atravessando o Passeio Público, sempre para norte, chegaríamos à Praça da Alegria de Baixo, donde se seguíssemos em frente, entraríamos na Calçada do Salitre.
A zona baixa da Calçada do Salitre era uma zona de animação e divertimento popular com teatro, circo, botequins, artistas, boémios e também prostituição («Psiu! Não sobes, ó catitinha?»), um pouco como a zona do Parque Mayer antes de ter sido quase abandonado há uns anos atrás. Nesta zona da Calçada do Salitre existiu a primeira praça de touros de Lisboa (construída por volta de 1777 - 1780), que depois foi ocupada pelo Circo Price, e o Teatro Variedades  (mais sobre o circo e os teatros da zona num outro post...). Em 1879, por ordem de Rosa Araújo, então presidente da Câmara, a praça de touros e o teatro, bem como os prédios da Calçada do Salitre e da Praça da Alegria de Baixo foram expropriados (por vinte e dois mil escudos... 110 euros... lol) e demolidos no contexto das obras de abertura da atual Avenida da Liberdade, com projeto de Ressano Garcia.

O Passeio Público, Carta topográfica, Filipe Folque, 1858
Sublinhado a verde, o Passeio Público, a laranja, a Praça da Alegria de Baixo, onde desembocava a Calçada do Salitre, Nesta carta, o Circo Price está assinalado como Circo do Salitre, na Calçada do Salitre.


Mais informação:
Ruas de Lisboa com História
Freguesia de São José
Lisboa de Antigamente

5 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 1


CAPÍTULO I


Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.

A cada minuto a agitação crescia. Pregoavam água fresca, pastelinhos, tâmaras. Dum primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas suplicavam:  Psiu! Não sobes, ó catitinha?  aos janotas que passavam. Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado. A iluminação profusa dos dois teatros doirava, remoçava, erguia as caliças octogenárias das Variedades, acendia espelhamentos fulvos no basalto húmido da calçada, e fazia entrever na penumbra, pela rua acima, o renque tortuoso dos prédios que subiam. A espaços, um trem rodava; e no seu rápido passar entre os dois teatros, uma dupla fita de fogo lhe corria na fluidez do polimento.


próxima