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6 de agosto de 2012

Retrospetiva do capítulo 1

Verdi por Giovanni Boldini, 1866
O capítulo 1 de O Barão de Lavos é assim como uma abertura de uma ópera de Verdi: dá o tom geral da obra e faz uma antevisão dos principais temas, espevitando a curiosidade pelo que se vai seguir. O Barão é-nos apresentado como o protagonista principal do romance e a pederastia, o seu tema central.

O Barão é caraterizado como um personagem nervoso, sensual, manhoso, hipócrita, que padece de um 'vício secreto' (é um 'caçador de efebos') de que se envergonha, sobretudo quando se compara com a vida exemplar e boa do casal Paradela, com quem se encontra inesperadamente a meio da sua 'caçada'. Mas mesmo quando a sua consciência se depara tão frontalmente com o 'bem', não consegue resistir a regressar logo ao 'vício' que o corrompe e empolga.

A pederastia do Barão, por ser moralmente criticada e porque percebemos logo nesta 'abertura' que o Barão é casado, anuncia o drama, que pode degenerar mesmo em tragédia (será que vai haver mortos ou feridos?).

O cenário é a cidade de Lisboa do final do século XIX, apresentada como pobre, decadente e provinciana. Os teatros estão envelhecidos e os espetáculos são rotineiros, as ruas enlameadas, uma multidão de vendilhões reles pulula entre os espetadores, em pleno Inverno os rapazes andam pelas ruas batidas pelo nordeste frio em corpinho bem feito e vendem-se a 'degenerados' que os assediam sexualmente.

A 'coda' do capítulo 1 deixa questões em aberto (o que terá o Barão combinado com o rapaz e será que ele vai cumprir o prometido, ou irá faltar?), o que é muito 'conveniente' do ponto de vista literário, uma vez que impulsiona o leitor a virar a página...

Fontes:
Wikipedia

22 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 6


No intervalo, o barão saiu excitadíssimo. Latejavam-lhe as fontes; via vermelho; na imaginação dançava-lhe a figura do jovem acrobata com uma insistência de alucinação, com uma nitidez material e implacável.

Cá fora recomeçara o alarido. Chovia. Abriam-se guarda-chuvas, e ouviam-se, disparadas contra o céu carrancudo, pragas de arrelia. Numa mercearia ao lado, a gente da geral comia pão com queijo e decilitrava. Os garotos insinuavam-se pelos grupos, gritando:  —  Senhas mais baratas... Quem vende a senha?  O barão tomou para o meio da rua, instintivamente. Sentia-se mal; tirou o chapéu; queria que lhe fustigasse o cérebro o ar fresco da noite. Nisto, chega-se-lhe um garoto:
— Vai-se embora, freguês? Quer vender a senha?
O barão olhou-o, distraído, mas ficou logo fascinado, com o olhar preso ao do rapaz. Se ele era a viva estampa do efebo que acabava de ver trabalhar! — Os mesmos olhos, a mesma estatura, o mesmo colo, a mesma elasticidade grácil, o mesmo ritmo adorável de movimentos. — Disse-lhe, repondo o chapéu, com os lábios a silvarem desejo:
— Dou-te a senha e dou-te dez tostões; mas hás de vir comigo.
— Aonde!?...
— Aqui ao largo do Passeio... Quero-te dizer uma coisa.
Como paxaste?... comentou agre o garoto. E afastou-se a correr: — Quem vende a senha, quem vende?
O barão não tugiu; porém, daí a minutos, estava novamente de volta com o rapaz:
— Então, queres ou não queres?... A senha e dez tostões.
E o rapaz, enfadado:
— O senhor deixe-me... já le disse.
O barão não insistiu; mas teve ocasião de reparar que, no franzir colérico dos olhos do garoto, uma nuvem se lhe esbatera sobre as faces, longamente. Era a sombra dos grandes cílios, fartos e sedosos. Tanto bastou para que, passados pouco minutos, ele estivesse de novo ao lado do rapaz:
— Olha lá, pela última vez!... Dou-te quinze tostões!... Chega aqui ao Passeio. Se não vens, arrependes-te... Quinze tostões!
O rapaz encarou-o muito, entre compassivo e espantado; pareceu refletir; e por fim resmoneou:
— Então, ande lá adiante.
Daí a pouco, o barão, encostado ao muro do Passeio, na quina oriental, frente à Rua das Pretas, tratava com o rapaz das senhas um diálogo animado e estranho. Propunha-lhe o que quer que fosse, — coisa pouco do agrado do moço; porque, à torrente de palavras do interlocutor, ele apenas opunha de onde a onde um meneio negativo de cabeça, ou mastigava baixo: — Está doido!... Eu não, senhor!  

Chovia ainda. Quando a água apertava, logo o barão, muito solícito: — Chega-te para aqui. — E ficavam os dois resguardados pelo mesmo guarda-chuva. E a arenga continuava, suplicativa, doce, muito persuadente, armada toda numa retórica inflamada, corrosiva, ignóbil. Tratava-se por certo de algum projeto infame de sedução. A certas frases, que o barão lhe coava mais baixo no ouvido, o rapaz tinha com o braço um gesto de repugnância, o rosto vincava-se-lhe de desgosto, e afastava-se.

Mas a eloquência do barão era inesgotável; acendia-lhe efeitos, argumentos novos, a veemência do desejo. Um Demóstenes do vício. Gradualmente, a inconsciência tímida do gaiato foi sofrendo o império da vontade dura e firme do aliciador. O rapaz agora escutava manso, com uma atenção resignada, passivamente; enquanto o sedutor falava, falava sempre, com os olhos afogados em volúpia, os pés irrequietos e o longo bigode cofiado tremulamente pelos dedos emaciados.

A arenga prolongou-se por mais de uma hora, interminavelmente. Já terminara a função no Circo. Rodavam os primeiros trens, e a multidão vinha escoando do Salitre para o largo, apressada, muda, apagada na monotonia dos abafos. Crescia um grande ruído de pés espatinando a lama. Raro, algum grupo de rapazes, lestos, corpinho bem feito, fumando, soltava na quietação pardacenta da névoa o trilo de uma risada.
 Então o barão, dando uma pequenina moeda de ouro ao rapaz, intimou: — Não faltes! — apertando-lhe com força o pulso. E separaram-se: o pederasta leve, orgulhoso, radiante, com a esperança a luzir-lhe nas feições; o efebo cabisbaixo, vergando a um problema, pensativo, contando as pedras da calçada, grave, meditando.

Sócrates e Alcibíades

Esta nota refere-se à secção 5 (que pode ler aqui) 

Banquete (cerca de 475 AC,  fresco de túmulo em Paestum, Magna Grecia)
A relação amorosa entre Sócrates e Alcíbiades foi apropriada como ícone gay na literatura moderna e chegou até nós sobretudo pelo O Banquete, de Platão(escrito por volta de 380 a. C.) em que celebremente se refere que o jovem mais belo de Atenas, Alcíbiades, se apaixonou pelo velho mais feio, Sócrates.
Sócrates
Sócrates (nasceu em Atenas, em 469 a.C., onde morreu em 399 a.C.), foi um filósofo ateniense, um dos mais importantes da tradição filosófica ocidental. É considerado por muitos filósofos como o modelo de filósofo. Foi o professor de Platão, um dos filósofos mais influentes de todos os tempos.
Alcibíades 
Alcibíades (nasceu cerca de 450 AC, morreu em 404 ou 403 AC) foi um político e comandante militar ateniense, apresentado por Platão como um jovem de muito belo e o aluno mais distinto de Sócrates.
Sócrates e Alcibíades em O Banquete, de Platão
Alcibíades irrompe pelo banquete (o banquete grego, ou symposion, era um jantar seguido de um período em que se serviam bebidas alcoólicas e se discutiam assuntos, muitas vezes pré-combinados) já bêbado e a meio da discussão, que nessa noite versava o eros (empregado na Grécia Clássica sempre com uma carga erótica, e portanto diferente do conceito atual de amor).
Alcibíades surpreende-se ao ver Sócrates no banquete e insinua que este o persegue. Sócrates, por seu lado, implora a Ágaton que o defenda de Alcibíades ("Desde os tempos em que me apaixonei por ele não me é permitido sequer olhar ou conversar com um único jovem belo! De contrário, aí o tenho à perna com os seus ciúmes e quezílias, a fazer-me cenas incríveis, a cobrir-me de injúrias...").
Alcibíades, desafiado pelos outros comensais, lança-se então num elogio a Sócrates, em que exalta as suas qualidades de oratória ("logo que [Sócrates] começa a falar, fico fora de mim, o meu coração começa a saltar no meu peito, as lágrimas escorrem-me pelo rosto") e o compara a silenos e sátiros e conta uma história da sua juventude em que, usando os seus encantos físicos, tentou seduzir Sócrates: "Eis que o convido para jantar, muito simplesmente à maneira de um amante (erastesque prepara uma cilada ao seu bem-amado (eromenos)..." para conseguir obter dele tudo o que ele sabia. Mas em vão, mesmo depois de todos se terem ido e de Alcibíades se ter deitado no leito de Sócrates, sob a sua capa, nada mais aconteceu "do que se tivesse dormido com o meu pai ou com um irmão mais velho".
No final do diálogo, Sócrates e Alcibíades permanecem distantes e Sócrates remata: "Julgas, é claro, que eu tenho obrigação de te amar a ti e a mais ninguém. Mas não, não me escapaste, essa tua comédia de sátiros e silenos foi por demais evidente".


Fontes:
O Banquete, Platão, Edições 70, 2008 (tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo)

18 de julho de 2012

O desejo mordia-lhe os nervos

Esta nota refere-se à secção 5 (que pode ler aqui)


"o pejamento da rua desaparecera"
pejamento (s. m.) 1. Ato de pejar. 2. Estorvo, embaraço.

Polifemo, um ciclope
"fulguravam como olhos de ciclopes, quentes e vermelhos"
latim fulguro, -are, lançar relâmpagos) (

v. intr.) 

2. Emitir brilho ou luz intensa.

os ciclopes (do grego Κύκλωψ, "olho redondo") eram, na mitologia grega, gigantes imortais com um só olho no meio da testa que, segundo o hino de Calímaco, trabalhavam com Hefesto como ferreiros, forjando os raios usados por Zeus.

"Vinham dilatadas perder-se na aspereza húmida da noite as últimas sonoridades metálicas de um galope sediço. Um estalo de chicote vibrava branco, de quando em quando."
A Rua do Salitre já estava calma e os sons da noite, ao invés dos motores e das buzinadelas dos automóveis da atualidade, eram os de um galope longínquo e monótono dos cavalos de algum trem que passara ou o estalo seco de um chicote a encorajar um cavalo.
sediço, grafia rara de cediço (origem duvidosa) ) (adj.) 4. Entediante, aborrecido.

"Depois de uma voltigeuse banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown"
voltigeuse (francês) (s. f.) acrobata que executa saltos.
clown (inglês) (s. m.) palhaço

"um salafrário num cavalo em pelo"
salafrário (origem obscura) (s. m.) [Informal]  Homem rude ou desonesto

"um hércules monolítico e façanhudo"

façanhudo (adj.) 1. Capaz de fazer façanhas; façanhoso. 2. Desordeiro; brigão. 3. [Informal]  Carrancudo.


"uma mulheraça toda expluente de adipos"
v. intr.) 

Explodir.

adipo, o mesmo que ádipe (latim adeps, adipis) (s. m.) Gordura.

"Fatos cerces de malha cor de carne, modelando escrupulosamente as formas, dando uma impressão do nu quase flagrante"
cerce (
adv.) 

1. Rente; rente com o chão; pela raiz.


"realçada nos mais leves detalhes anatómicos por bem calculados efeitos de luz Drummond (...) na crua incidência da luz do magnésio"
Luz de Drummond, ou luz oxídrica, é um tipo de iluminação de palco usada antigamente nos teatros e salas de música. Produz-se uma iluminação intensa quando uma chama de oxihidrógeno é dirigida contra um cilindro de cal viva (óxido de cálcio).
Luz do magnésio, o magnésio é inflamável e produz uma luz intensa, branca e brilhante (...) outros usos incluem flashes fotográficos, pirotecnia, bombas incendiárias e granadas de luz (flashbang).

Hetera num banquete (cerâmica grega)
"seduzia como uma hetera e dominava como um herói"
As heteras ou hetairas (do grego ἑταίραι - hetaírai - "companheiras") eram cortesãs e prostitutas sofisticadas da Grécia Antiga, que além de prestações sexuais ofereciam companhia e com as quais os clientes frequentemente tinham relacionamentos prolongados.

"O barão, todo nos olhos, seguia avidamente a pantomima"
pantomima (latim pantomima, -ae, mulher que representa com gestos) (s. f.) 1. Arte de exprimir os sentimentos, as paixões, as ideias, por meio de gestos e atitudes, sem recorrer à palavra. 2. Representação teatral em que os atores se exprimem unicamente por meio do gesto.
todo nos olhos, talvez equivalente à expressão atual "era só olhos", significando que estava concentrado no olhar? algum comentário sobre o significado desta expressão? será erro tipográfico?


"O desejo mordia-lhe os nervos"
Uma bela expressão, sucinta e simples, que transmite vivamente a sensação pretendida.

Fontes:


O 'vício' homossexual do barão


Esta nota refere-se à secção 4 (que pode ler aqui) .


O Castigo dos Sodomitas (pormenor do fresco O Juízo Final)
Miguel Ângelo (Capela Sistina, 1534-41)
Logo no início do romance é feito o'retrato' da homossexualidade do barão que logo se classifica moralmente. Vejamos as seguintes passagens:

"A súbita aparição daquele par honesto e simples, caindo de chofre, com toda a galharda e lúcida expansão de uma vida exemplarmente calma no torvelhinante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando nas estalactites de uma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso. Corou, atabalhoou, agitou-se, e após uns segundos de arreliante embaraço, mal conseguiu balbuciar:"

O contraste entre o casal heterossexual, "honesto e simples" e "exemplar" com a pederastia do barão, que é descrita como um "torvelhinante mistério", um "vício alucinante" é marcada, tal como os sentimentos do barão em relação a este encontro inesperado com a 'virtude': "peso na consciência", "remorso", "embaraço".

"— Muito louvável, minha senhora, muito louvável... — apoiou o barão, já outra vez empolgado pelas degenerescências do sangue, e fixando com avidez um efebo que vira despontar das bandas do Passeio."

Mas pior, apesar de reconhecer conscientemente o seu vício, de que se envergonha, este é mais forte que ele, e o barão, "empolgado pelas degenerescências do sangue", distrai-se da conversa com o casal "exemplar" para focar a sua atenção "lúbrica" num efebo que se aproxima e que ele cobiça.


Estamos pois perante uma degeneração, um vício alucinante, embaraçoso e misterioso, a que não se consegue resistir logo que nos deixamos prender pelas suas garras.

15 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 5


Efetivamente, nas imediações do Circo rareava o público e o pejamento da rua desaparecera. Na frontaria farrapenta e mesquinha daquele barracão verdenegro, os dois óculos de venda dos bilhetes, agora a descoberto, fulguravam como olhos de ciclopes, quentes e vermelhos. O noroeste frígido recalcava as lufadas de ar quente, no portal escancarado. Vinham perder-se dilatadamente na aspereza húmida da noite as últimas sonoridades metálicas de um galope sediço. Um estalo de chicote vibrava branco, de quando em quando. O barão, atraído pela sensualidade do espetáculo, foi comprar bilhete. Enquanto o bilheteiro lhe fazia o troco, o bom do velho Price, sentado ao fundo do cubículo, gordachudo e flácido na grande luz do recinto, os dedos entrecruzados beatificamente sob o ventre, dormitava.

Lá dentro a função, a despeito do cartaz berrante, seguia com a monotonia do costume. Depois de uma voltigeuse banal furando arcos de papel de seda, um intermédio cómico pelo primeiro clown, prodígios de equilíbrio de uma criança sobre um arame, cães sábios, barras fixas, um salafrário num cavalo em pelo. O barão, por um fenómeno aliás frequente na dinâmica dos sentidos, arrefeceu, acalmou; e numa intercadência de bom senso, filha de uma reação salutar do organismo, sentiu que se aborrecia muito sofrivelmente. Pôs-se então a mirar pela centésima vez os escudetes das colunas que sustentavam a cúpula central, e a contar as tiras de paninho, alternadamente azuis e brancas, irradiantes do fecho do tecto, em cuja curvatura, sete anos antes, quando fora da inauguração, tão engomada e tão lisa, um ou outro rasgão indiscreto começava a pôr escarninhamente a certidão de idade.

O último trabalho porém da primeira parte reacendeu os instintos pederastas do barão. — Família de acrobatas. Cinco: um hércules monolítico e façanhudo, um rapazola magro, de ossatura agressiva; uma mulheraça toda expluente de adipos; uma criancita franzina, sem sexo, amedrontada, frouxa; e um efebo extraordinariamente elegante. — Fatos cerces de malha cor de carne, modelando escrupulosamente as formas, dando uma impressão do nu quase flagrante, realçada nos mais leves detalhes anatómicos por bem calculados efeitos de luz Drummond.

Faziam trabalhos académicos; reproduziam as composições célebres da estatuária clássica. A rápida sucessão dos grupos, arquitetados a meio da arena, sobre um velho tapete, na crua incidência da luz do magnésio, tinha uma viva arrogância de animalidade, sugeria as demências quentes do sensualismo pagão. A um tempo viril e doce, impetuosa e lânguida, efeminada e rude, aquela mobilidade atormentada, vertiginosa, artística, ensopava os nervos numa alta voluptuosidade, seduzia como uma hetera e dominava como um herói. O barão, todo nos olhos, seguia avidamente a pantomima. Hipnotizava-o principalmente o belo efebo, com o seu rosto de um talhe impecável, o seu colo alvo e redondo, os seus grandes olhos de veludo negro, o seu corpo sólido mas enxuto, de carnes escorrentes, todo em curvas levissimamente cheias, todo num contorno de músculos suavíssimo, numa linha plástica sedutora, todo quebrando-se em não sei quê de feminilmente ondulado e grácil, que a ginástica afinara e consolidara, irrepreensivelmente.

O barão sorvia-lhe, um a um, os movimentos, e em cada atitude, em cada pirueta nova lhe descobria um estímulo, uma sedução mais. O desejo mordia-lhe os nervos. A fascinação tornou-se completa, doida, quase dolorosa. Sócrates não ficou mais inteiramente subjugado, ao seu primeiro encontro com Alcibiades.


— Toma-se um trem. Isto de hoje não pode passar.


Esta nota refere-se à secção 4 (que pode ler aqui) .


Polícia em patrulha, início do séc. XX,
Joshua Benolie
"À porta, dois contratadores apenas, um polícia"

contratador (subst. masc.) 1. Que ou o que contrata. 2. Arrematante de fornecimentos ou serviços. 3. Revendedor.
Neste caso parece tratar-se de contratadores de bilhetes de espetáculos, que revendiam bilhetes, com bons lucros, à entrada dos teatros e outros espetáculos a quem quisesse evitar as filas das bilheteiras ou a quem quisesse um lugar para uma sessão já esgotada. O "exercício do mister de contratador ou revendedor de bilhetes de entrada em recintos de espectáculos ou divertimentos públicos" acabaria por ser proibido (decreto-lei n.º 36371 de 25 de junho de 1947).

"uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçaria"
coalhado (adj.) 2. [Figurado]  Coberto inteiramente, cheio.
A velhota que estava a vender doces à porta do teatro teria tido pouco sucesso, porque o seu tabuleiro ainda estava cheio de guloseimas baratas e, presume-se, pouco higiénicas.

"Ao descortinar na sombra dos extremos da rua qualquer escorço vago de adolescente que viesse a crescer"

escorço (do italiano, scorcio) (subst. masc.) 1. Efeito de perspetiva que apresenta mais pequenos que o natural os objetos que se veem de frente ou a distância. 2. Arte de representar os objetos em proporções mais pequenas que a realidade. 3. [Por extensão]  Obra de pequenas dimensões. 

"na zona duramente iluminada pelo renque de bicos de gás tremebrilhando sobre o portal do Circo."
Mais um neologismo de Abel Botelho. Ver as observações de Mário de Carvalho, aqui.

"No melhor de um destes alheamentos fervidos de pederasta"
Uma expressão interessante! Estes "alheamentos" serão distrações, ou perturbações, ao passo que "fervido" remete para calor ou agitação borbulhante, ou seja, o barão foi apanhado completamente distraído no meio do seu deambular agitado à porta dos teatros.


"A súbita aparição daquele par honesto e simples, caindo de chofre, com toda a galharda e lúcida expansão de uma vida exemplarmente calma"

galhardia (subst. fem.) 1. Airosidade; elegância; bizarria. 2. [Figurado]  Generosidade, grandeza de ânimo.
3. Esforço, bravura.


"no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício"
torvelinhar (verb. intr.) Fazer torvelinho; agitar-se; redemoinhar.

"E depois, para a esposa de Henrique: — Como está vosselência, minha senhora?"

vosselência (pron. pess. 2 g.) Tratamento, o mesmo que Vossa Excelência.
Um tratamento que deixou de se usar e que tem, atualmente, uma conotação de pompa e submissão exageradas, mas que soa muito bem e é de pronúncia agradável.

"— Toma-se um trem. Isto de hoje não pode passar."
Um trem, no século XIX, não era um comboio, mas antes um carro de aluguer puxado a cavalos (ver imagem à direita).


"— Adeus, — rematou D. Leonor, estendendo a mão ao barão. — Muitas recomendações à Elvira."

recomendações (subst. fem. pl.) 4. Recados, cumprimentos.


Fontes:

11 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 4


Aproximara-se do teatro das Variedades, onde retinia o sinal de começar o espetáculo. Tinha entrado quase tudo; os retardatários premiam-se ao fundo do corredor estreito que dava para a superior. À porta, dois contratadores apenas, um polícia, e, sentada no último degrau sobre a rua, uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçaria, com uma vela protegida por um cartucho de papel cor-de-rosa.

Dali o barão, um pouco à vontade, mais fora do alcance de encontros inoportunos, continuava a perscrutar com um exclusivismo ardente as imediações do Circo fronteiro. Ao descortinar na sombra dos extremos da rua qualquer escorço vago de adolescente que viesse a crescer, aproximando-se, o seu olhar piscante de míope contraía-se numa crispação suprema de expetativa angustiada, e seguia-lhe vorazmente os movimentos, até poder analisá-lo, adivinhá-lo bem na conformação, no tipo, na plástica, no modo de vida provável, nas predileções sensuais do temperamento, quando o rapaz entrava na zona duramente iluminada pelo renque de bicos de gás tremebrilhando sobre o portal do Circo.

No melhor de um destes alheamentos fervidos de pederasta, o barão estremeceu. Mão amiga lhe pesara no ombro, enquanto uma voz familiar lhe perguntava em ar de adorável reprimenda:
— Que faz você por aqui a esta hora?
Era o seu leal e velho amigo, Henrique Paradela, que, com a mulher pelo braço, descia tranquilamente à Baixa.
O barão ia-se traindo. A súbita aparição daquele par bondoso, honesto, simples, caindo de chofre, com toda a galharda e lúcida expansão de uma vida exemplarmente calma no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando nas estalactites de uma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso. Corou, atabalhoou, agitou-se, e após uns segundos de arreliante embaraço, mal conseguiu balbuciar:
— Estou à espera de uns rapazes... Combinámos vir ao Circo hoje... Mas demoram-se.
— Não sei como ainda há quem ature esta maçada, — comentou Henrique, apontando com a bengala o portal do Circo.
E o barão, um nadinha humilhado:
— À falta de outra coisa... — E depois, para a esposa de Henrique: — Como está vosselência, minha senhora?
— Eu bem. E a Elvira?
Quase ao mesmo tempo, Henrique perguntava:
— Há cá hoje algum trabalho novo?
— Não, — tornou o barão; — isto foi por não termos para onde ir.
— E então vens esperar os teus amigos para este lado?
— Sim, bem vês; aqui, longe do apertão, vejo melhor quando eles chegam.
— Pois nós vamos à Baixa. A Leonor anda há dias para fazer umas compras... Aproveitamos hoje, que me apanhou mais desembaraçado.
— Imagine, barão, — acudiu, num abandono íntimo, D. Leonor, — os pequenos estão sem ter que calçar; eu também preciso umas miudezas; e depois de amanhã casa-se aquela minha criada, a Joaquina, que me pediu para ser madrinha do casamento, e eu tenho de lhe dar alguma coisa.
— Muito louvável, minha senhora, muito louvável... — apoiou o barão, já outra vez empolgado pelas degenerescências do sangue, e fixando com avidez um efebo que vira despontar das bandas do Passeio.
O amigo convidou, todo afável:
— Vem daí connosco!
— Ó menino, não posso, bem vês. Combinámos... Desculpem-me... E daí, talvez tenham chuva. A noite não está boa.
— Toma-se um trem. Isto de hoje não pode passar.
— Adeus, — rematou D. Leonor, estendendo a mão ao barão. — Muitas recomendações à Elvira. E depois de amanhã não faltem!
— Por modo nenhum! — corroborou Henrique, apertando também a mão ao amigo. — Adeus... Olha que o espetáculo já começou.

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Dicionário


Esta nota refere-se à secção 3 (que pode ler aqui) .

"— Bravo, barão!... Rente às quintas-feiras... É como eu."

rente (adj. 2 gén.) 1. Próximo; cérceo; muito curto. 2. [Informal]  Pronto; assíduo.

O sentido, aqui, parece ser o de "assíduo às quintas-feiras"

"— Isso é que é zelo... pelo culto das belas."
Parece tratar-se de um trocadilho maroto do barão: o coronel também é assíduo no teatro (uma das "belas-artes"), mas o que o barão, maroto, insinua é que ele vem é ver as "belas... mulheres"

"tipo insinuante de marnoto"

marnoto (subst. masc.): 2. Aquele que trabalha nas salinas.


"com uma expressão tão nuamente lúbrica"

lúbrico (latim lubricus, -a, -um) (adj.) 2. Que tende para a luxúria, para a sensualidade.

A expressão do barão a olhar para o rapaz foi, pois, descaradamente sensual.

"— Olha que gajo!... Você comigo engana-se!"

gajo (subst. masc.) 1. [Calão]  Indivíduo ordinário; súcio. 2. Tipo. (adj.) 3. Velhaco; espertalhão; malandro.

Curioso, como algumas palavras de calão são muito mais antigas do que imaginávamos.

"O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém teria ouvido"

circunvagar (verbo intr.) 1. Vagar em torno, andar sem destino, andar errante. (verbo tr.) 2. Vaguear em redor de.
Aqui temos uma repetição e uma contradição: "circunvagar em torno" (o prefixo "circum" em "circunvagar" tem o mesmo significado de "em torno") e "circunvagou rápido" ("vagar" em "circunvagar" é mais associável a lentidão que a rapidez). Conseguem imaginar razões para esta escolha de palavras?

"rodou viscoso para longe"
viscoso (latim viscosus, -a, -um) (adj.) 1. Que tem visco. 2. Que tem consistência mole, semelhante a gelatina. 3. Que adere ou se pega facilmente.
Algo que causa repulsa, talvez uma forma de criar uma "imagem" negativa do barão, associando-o a algo repelente.

Fontes:



10 de julho de 2012

"Truque" literário

Esta nota refere-se à secção 3 (que pode ler aqui) .

"Truque" literário
Depois de ter feito "zoom" da multidão que se acumulava para entrar nos teatros até a um homem isolado que circulava no meio dela, a narrativa tinha que seguir explicando quem era esse homem. Abel Botelho podia ter continuado em formato descritivo ("Era o barão de Lavos, um homem casado mas que..."), mas decidiu usar um "truque" literário que tornou a narrativa mais viva e interessante: inventou um encontro casual com um coronel que conhecia o barão, e pôs na boca do coronel a identificação desse tal homem misterioso. 
Não só ficámos a saber que se tratava de um barão, mas ficámos a saber também (sem ser preciso escrevê-lo explicitamente, porque a associação é óbvia) que era o personagem principal do livro, o barão de Lavos, um "caçador de efebos", com o que, de uma assentada, fomos introduzidos ao que é, talvez, o tema principal da obra, a homossexualidade. Bravo! Grande abertura!

8 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 1 - secção 3


Um bom velho de ar marcial, vermelhinho e gordo, bigode e pera negros, bateu-lhe no ombro:
— Bravo, barão!... Rente às quintas-feiras... É como eu.
— Ó coronel! — balbuciou o barão, levemente perturbado, cumprimentando, — isso é que é zelo... pelo culto das belas.
— Ai! Ai!... Com elas é que eu me quero. Já agora hei de morrer assim... A esposa, boa?
— Boa, obrigado... Não quis vir.
— Já tem bilhete? São horas.
— Eu não entro por ora. Logo nos vemos, lá dentro.
Um impulso da onda que entrava separou-os.


O barão deu de frente então com um rapazito que vendia pastéis. Teria quinze anos. Pele morena, olho aveludado, tipo insinuante de marnoto, camisola de xadrez azul e preto, calça branca muito justa, à frente uma grande cesta vestida de oleado, em cujo interior destacavam de uma alvura de toalha várias gulodices. Como viu o barão encará-lo com insistência, o rapaz naturalmente aproximou-se:
— Quer pastelinhos, freguês?
E oferecia-lhe o cesto, donde vinha um cheiro morno a canela e a manteiga.
O barão porém respondeu-lhe: — Não, filho... não quero pastéis! — com um acento, uma expressão tão nuamente lúbrica, que o rapaz retrucou, num tom de desprezo sacudido, dando-lhe as costas:
— Olha que gajo!... Você comigo engana-se!
O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém teria ouvido, e rodou viscoso, manso, para longe, infiltrando-se, anulando-se na massa anónima daquela multidão turbulenta.


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Dicionário

Esta nota refere-se à secção 2 do capítulo 1 de O Barão de Lavos que pode ler aqui.


"esculdrinhava a multidão"
escudrinhar ou esculdrinhar, o mesmo que esquadrinhar.


"nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém"
aferro (s. m.) Apego tenaz, obstinação, dedicação.


"este noctívago caçador de efebos"
efebo (s. m.) Mancebo entrado na puberdade.




Fontes:
Dicionário online Priberam
Diccionario da Lingua Portugueza, de António de Moraes e Silva, 1823

7 de julho de 2012

Comentário

Esta nota refere-se à secção 1 (que pode ler aqui) e à secção 2 (que pode ler aquido capítulo 1 de O Barão de Lavos .


"Travelling" do filme A Invenção de Hugo, de Martin Scorcese

Repararam no efeito "zoom" dos primeiros parágrafos de O Barão?
Parecem as primeiras cenas de um filme moderno, um "travelling" que começa longe e alto (a multidão que se acotovela em frente aos teatros, a agitação, os gritos e pregões) e em que a câmara de filmar se vai aproximando num zoom cada vez mais intenso (uma carruagem que passa deixando um rasto de luz, uma "menina" à janela que convida os janotas que passam em baixo na rua) para destacar, já na secção 2, um único homem, no meio da multidão.


Fogo de artifício de escrita
Enquanto a secção 1 é exuberante, um fogo de artifício de escrita, usando ritmo rápido,  neologismos, imaginação, metáforas, multiplicidade de imagens, a secção 2 é mais calma, mais monótona e mais comum. Depois de ficarmos deslumbrados na secção 1, trata-se agora de nos espicaçar a curiosidade e de nos obrigar a continuar a ler para saber quem é esse homem estranho e irrequieto que anda entre a multidão, mas que não se mistura com ela (os seus objetivos diferem; ele busca a satisfação de um desejo sensual; ela busca divertimento no teatro).

Curiosa também a evocação dos cinco sentidos
O vento noroeste frio e húmido, o cheiro pelintra a iscas e refogado (parece quase a letra de um fado), os gritos e os pregões, a iluminação profusa dos teatros que doirava e remoçava. Falta apenas a menção explícita ao sabor, mas que quase se sente com o cheiro das iscas e do refogado.



O que se segue? Pois claro, saber quem é esse homem estranho que anda a caçar efebos à noite. E esse vai ser o objetivo da secção 3, já a seguir.